“Durmo beija-flor e acordo sempre-viva” | Mara Narciso*

22 de maio de 2015

A afirmativa “eu não gosto, eu não entendo (de) poesia” é burra. Meu amigo, o escritor Pedro Bondaczuk ensina-me há oito anos em seus férteis textos, que o melhor jeito de começar o dia é lendo um poema, em voz alta, repetindo-o, para ter bom aproveitamento. Não desdenhava da sugestão, mas achava graça da solenidade quase religiosa. Pensava dessa forma, porque não tinha encontrado o meu livro de poemas. Curioso é que comecei a lê-lo quase por obrigação.

Era preciso começar, pois a autora, de uma alegria explosiva, para a qual faltam superlativos é por si mesma um chamariz. Tudo nela é imenso, do sorriso à cor vermelha dos cabelos, da pele clara à extensão do seu abraço. É professora, literata, atriz, dança e canta. É casada e tem dois filhos. Nasceu em Francisco Sá, antes Brejo das Almas, e mora em Montes Claros.

Pratica ciclismo, anda de vestidos longos estampados com desenhos berrantes, e caso precise de se vestir de palhaço, faz isso de forma alegórica, com estardalhaço e o suprassumo da naturalidade. Sua maneira exagerada contrapõe com a delicadeza das suas idéias. Fui ao lançamento do seu mais recente livro, o sexto publicado individualmente, e ouvi atenta a leitura do prefácio escrito por Ivana Rebello. Encontrei bons amigos, e já na hora de sair, decidi-me por voltar, pegar o livro, tirar uma foto com a autora, dar outro abraço em Karla Celene Campos.

Olhei a capa, uma foto da pensativa poeta diante da lareira, e pensei no desafio que é ler poemas. Nas orelhas, o escrito de Georgino Júnior fazia um convite, quase uma profecia: “cheguem-se logo leitores, e aproveitem”. Em cena a primeira página. Os versos estavam soltos, sem ponto, sem vírgula, um após outro, uma palavra abaixo da outra. A falta de pontuação lembra a ausência de armadura que pauta a vida de Karla Celene, mulher sem peias, hiperbólica em afetos, graça e sorrisos. Tudo em Karla é emoção.

“Cultivo coisas inusitadas dentro de mim

Músicas coloridas

Arco-iris pássaros que voam

E borboletas no interior da barriga

Por isso amanheço dos temporais

E rediviva

Durmo beija-flor

E acordo sempre-viva”

 

Estou embasbacada com o mundo pictórico para o qual Karla Celene me convidou a entrar, mergulhar e me lambuzar. Foram-me escancaradas muitas delícias cujo sabor eu desconhecia. Passei por sustos gostosos e gozosos, como se para tais suspenses eu ficasse em crise de asma, e por fim ligassem-me o oxigênio. E após melhorar o fôlego, chega-me um beijo na boca, um inesquecível beijo roubado.

Karla Celene Campos, o seu livro “O Lado de dentro das coisas” disseca sem meias palavras suas verdades inteiras, numa gostosa sessão de anatomia, mostrando o lado luminoso das paixões, das dores e das alegrias. Sinto-me grávida de supremo êxtase. Agora eu tenho um livro de cabeceira, para começar o dia lendo um poema em voz alta:

 

“A vida

Brevíssimo instante

É a pedrinha de açúcar

Lançada

Ao mar”

 

Karla Celene e eu, O lado de dentro das coisas

 

Karla Celene e Mara Narciso:

O Lado de dentro das coisas

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* Contato: yanmar@terra.com.br