Nas pontas dos pés* | Antonio Fabiano**

O Bailarino

Com as pontas dos pés

O bailarino tocava as copas das árvores.

O bailarino girava

Vestido de lua e vento

Sob o céu noturno

De milhões de olhos acesos.

Deslizava como dedos

Ao piano

Em sonata de Chopin.

O bailarino bailava

Sob a luz

Da esbugalhada lua

Sob o riso

De um asteroide

– risco –

Astros vivos e morrentes

Lume luz.

Vestido de desalento

O bailarino voava

Por sobre as copas das árvores

Enchia de nada a noite

Cortava o espaço dormente…

E a sua solidão

Sabida só pela boca

Tangida só pelas cordas

De um trágico anfitrião

Desafinava no tempo

Caía em folhas ao vento

Por sob as copas das árvores

Ainda que fora disso

Muito acima de seus pés

Este hábil bailarino

Bailasse mais que a soberba

Roda gigante da vida

Que roda e gira possante

Na vertusta e estonteante

Velocidade da luz.

 

Grão Milagre

 

Houve um tempo em que eu pensei não ser

O que era e estava lá desde o princípio…

Houve um tempo em que eu tentei

Calar a música que tocava

No fundo do meu ser silente.

Tudo era como dizer ao sol que não nascesse

Ou dar ordens aos ventos

Para que seguissem outro curso.

Eu descobri então que não se pode interromper

Com as mãos a dança de um rio…

A gente é e para isso nasce.

O pulso às vezes dói mas é sublime e

– mesmo que eu não quisesse –

Morava e ainda mora e há de morar

Nas veias como em ostra o grão milagre!…

 

Poema Simplicíssimo

 

Um poema que tivesse

Toda a poesia do mundo

Eu to daria – se soubesse!

 

Um poema que unisse

Luz e sublimação

E que fugisse

Logo da minha mão

Assim que eu o desse

A ti – em canção –

 

(Indo pousar na messe

Do teu coração)

 

Eu to daria – se pudesse!

 

Um poema de verso forte

Como a sorte

E feliz como a raiz

Mais nobre que o céu cobre –

A ti o faria

Com alegria!

 

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Extraídos de Nas pontas dos pés. Antonio Fabiano. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2015.

Contato: www.antoniofabiano.blogspot.com.br