“Eu, comigo e Deus” | Patricia Tenório*

16/01/14

 

Ficava em 20, Maresfield Gardens, num subúrbio de Londres. Vindo de metrô, descia na estação de Hampstead Northern, atravessava a rua e subia uma ladeira. Me perdi duas vezes até encontrar a placa da casa-museu, uma casa de dois andares, tipicamente inglesa. A rua estava calma, com as folhas das árvores levitando pelo chão.

Ao entrar, encontrei uma senhora, bem velhinha, que vendia os bilhetes e souvenirs. Ela me disse que não podia fotografar, mas me chamou a um canto da loja e perguntou:

– Quer ver onde Freud encontrou Deus?

Parei um instante com a pergunta. Poderia ficar séculos remoendo em minha mente uma resposta digna de meus estudos, digna da lucidez, digna de…

– Não acredito em Deus.

Ela me olhou de mansinho. Passou a mão enrugada no meu rosto jovem. Puxou-me pelo braço.

– Venha mesmo assim.

Eu não sabia se ia ou corria embora. Mas resolvi arriscar, e resolvi caminhar pelo pequeno jardim, e me sentei em uma das espreguiçadeiras, onde um dia sentou Freud com o suposto visitante.

– Foi aqui.

Ela me deixou a sós. A sós com meus pensamentos. A sós com a possibilidade de ser Freud algum dia, um dia de verão londrino, sentando numa espreguiçadeira, com uma jarra de limonada rósea na mesa ao lado.

– Deus está aqui.

Freud se engasgou com o gelo da limonada rósea quando a moça (que será uma velhinha) trouxe um senhor de barba branca, comprida, para sentar na outra espreguiçadeira.

Ficaram os dois fazendo ninho em suas barbas brancas. “Então, assim que era Deus?”, pensou Freud, ele e os seus pensamentos que não paravam de pensar.

– Sim, sou mesmo assim. Ou de outra forma qualquer. Mas quis te aparecer como ao povo judeu, judeu que tu és.

– … produto da minha imaginação…

– Herança da tua fé.

Freud serviu-se de mais limonada. Serviu também a Deus.

– Aceita?

– Obrigado.

– Mas, ao que devo a visita?

– Tu deves saber.

– Não sei.

– Adivinha.

– Não sou bom com jogos.

– Mas desvendas estórias.

A limonada estava doce demais. Freud serviu-se de algumas pedras de gelo.

– Algum de seus filhos.

– O maior de todos.

– O Cristo?

– Exatamente. Há séculos me atormenta um fato. Por isso vim aqui falar contigo.

– Sou todo ouvidos.

– O Horto das Oliveiras.

– O Horto das Oliveiras… Da grande angústia… O suor de sangue…

– Teria ele vacilado? Será que ali meu filho, meu grande filho, o maior de todos, me traiu?

– Por que me pergunta isso? Pelo que dizem, você sabe de tudo…

– Mas eu quero saber o que tu pensas.

– Você sabe o que eu penso…

– Quero ouvir-te falar.

Freud se levantou da espreguiçadeira. Eram duas cadeiras espreguiçadeiras pintadas de branco. Antes, porém, eram na madeira, sem pintura, com apenas uma camada de verniz.

– Se eu acreditasse em você – disse Freud caminhando pelo jardim, em um típico dia de verão londrino –, eu diria que seu filho não o traiu. Aliás, nunca ele foi mais fiel do que naquele momento em que, suando sangue, antecipando tudo o que iria sofrer num futuro próximo, bem próximo, pediu “Pai, afasta de mim este cálice de amargura”, para, logo em seguida, voltar atrás e dizer “Que seja feita a tua vontade, e não a minha”.

– Mas tu não acreditas em mim.

Freud tirou do bolso uma pequena caixa de charutos.

– Aceita?

– Não, obrigado.

Acendeu o charuto, deu uns cinco passos e voltou a sentar na espreguiçadeira.

– Eu diria que ele não o traiu. As circunstâncias eram propícias para que desistisse: ele sabia que os amigos o abandonariam, que seria torturado e morto, o que tinha a seu favor? Até hoje me pergunto: “O que tinha a seu favor?” Um louco alemão que extermina judeus feito ele? Que por isso precisou fugir para a Inglaterra? Um câncer na boca que o impediria de falar? Um futuro mais que incerto, com dissidências entre os seus seguidores, julgamentos cretinos dos seus estudiosos? Não, não, ele não o traiu. Ele permaneceu coeso, coerente, com toda a sua humanidade, continuou escrevendo e fumando o seu charuto, e vivendo o restante da vida que ainda possuía.

A conversa estava fluindo bem quando a moça (que um dia será uma velhinha) interrompeu.

– Tem um rapaz, barbudo, cabelos longos, querendo falar com os senhores.

– Arrá! Agora vai ficar interessante, “Deus”! ‒ Freud fez o gesto de aspas.

Deus deu de ombros.

– Pode mandar o rapaz entrar, Fräulein, e traga mais uma cadeira para ele.

O jovem, barbudo, cabelos longos, atravessando o jardim lentamente, conversando com a moça, que seria velha um dia, explicando a diferença entre as margaridas e os girassóis, acompanhando o voo das borboletas.

Ao se aproximar de Deus e Freud, o jovem parou. Cumprimentou Deus com a cabeça. Olhou diretamente para Freud e falou:

– Prazer, sou o Cristo.

– Prazer, Sigmund Freud.

A espreguiçadeira devidamente arranjada, a limonada rósea servida.

– Bonita casa, Sigmund.

– Obrigado, Cristo, gentileza sua.

De repente, Freud começou a rir. Ria balançando os óculos, balançando o charuto, fazendo as cinzas caírem na grama bem aparada do jardim de verão londrino.

– Só falta agora o Espírito Santo!

– Mas ele já está aqui, Sigmund. Lembre-se, “Onde dois ou mais estiverem reunidos…”.

– E sua santa Mãe?

– Freud…

– Desculpe, Deus, mas não pude resistir… É tão hilário, tão absurdo! Ter vocês aqui! Os dois. Quer dizer, os três.

– Não acredita, não é, Sigmund? Quer ver minhas chagas, feito Tomé?

– Acredito no poder da mente, oh, Cristo. Acredito no poder da minha imaginação, que viaja quase dois mil anos para conversar com você e com seu pai, graças ao “Espírito Santo” – Freud com as aspas nos dedos.

Ficaram os três se entreolhando: Freud, Deus e Cristo. O Espírito Santo deveria estar protegendo o lugar, pois ninguém mais chegou e interrompeu o colóquio divino-humano.

– Mas como você ia dizendo, Deus…

– Não, eras tu quem transcorria sobre a não traição do meu filho, o maior de todos.

– Obrigado, Pai.

– Mas por que me pergunta, se ele está aqui? Ele próprio pode responder.

– Mas ele já respondeu com a própria vida. Basta.

– Sigmund, queremos saber o que você pensa.

– Mas vocês o sabem!

– Será?

– E não seria? Se vocês forem quem dizem que são e fazem o que dizem que fazem, decerto possuem a minha resposta. A propósito, como conseguiram chegar aqui e entrar com tanta facilidade? Fräulein é muito desconfiada com visitas… Entendam, o meu caso é muito delicado. Estou numa posição em que todos querem saber o que penso: o que penso de Hitler, dos campos de concentração, da mente humana, dos sonhos, de jovens escritores que um dia virão aqui visitar esta mesma casa, atravessar o mesmo jardim, e (talvez) quem sabe sentar nesta cadeira com seu bloco de anotações, caneta em punho e fazer surgir palavras – desconexas, a princípio –, mas que em seguida irão se conectando, e congruindo, e se mostrando lúcidas e coerentes. Acredito nessas palavras, nessas, eu acredito. Acredito porque foram ruminadas, e ficaram rondando e rodando a cabeça jovem sem dar explicações, simplesmente existindo. Até que o toque de uma pessoa amada, o sorriso de uma criança, ou apenas um dia de verão londrino, entre margaridas e girassóis, as borboletas em seu voo solitário, até que um desses elementos extraordinários da vida trouxesse à tona o sentido dessas palavras. O sentido que as aproximou do seu centro, e nada mais importava para quem escrevia, porque ao centro chegou.

A senhora bem velhinha tocou no meu ombro.

– Faltam dez minutos para o museu fechar.

Fiquei assim, sem palavras, meu corpo, sem movimento, porque estive eu, comigo e Deus durante a tarde inteira e não senti a tarde passar. Como se o passado, o presente e o futuro houvessem se fundido em um tempo só, e como se os personagens tivessem preenchido meu corpo, ao mesmo tempo.

Então, tempo e espaço me coabitaram. Ou melhor, tempos e personagens. Porque fui Deus, Freud e Cristo, fui o Espírito Santo entre eles.

Minhas mãos tremiam, e muito me custou juntar o bloco de anotações, a caneta, a mochila. As pernas também estavam bambas, e foi com dificuldade que me levantei e me apoiei na senhora bem velhinha para atravessar o jardim, a loja de souvenirs, a casa-museu de dois andares e chegar até a porta do 20, Maresfield Gardens.

A velhinha me acenou em despedida. Parecia mais jovem do que eu, eu que havia envelhecido séculos em uma tarde.

Ao me lembrar disso tudo, hoje, eu, com meus filhos e netos, sinto como se o tempo não houvesse passado, ou como se houvesse passado tão rápido que estivesse próxima a hora do reencontro com os personagens, no mesmo jardim inglês, naquelas espreguiçadeiras brancas.

– Vejam, ainda guardo comigo a ponta do charuto de Freud!

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* Patricia Gonçalves Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2015) se prepara para defender a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br