As três primeiras crônicas de “Torre Malakoff”* | Paulo Paiva**

Torre Malakoff

 

Na Praça do Arsenal de Marinha, a velha torre, antiga entrada do Estaleiro Naval, reina soberana. Em 1905 era o edifício mais alto da cidade que detinha a primazia de ser o segundo polo de Construção Naval do país. Estava em curso a Guerra da Criméia, entre o Japão e a Rússia. O povo deu-lhe esse nome em alusão a uma edificação que existia no país eslavo.

À direita da Torre o prédio da Capitania dos Portos, antes utilizada pela Escola de Aprendizes Marinheiros de Pernambuco, e posteriormente pelos Fuzileiros Navais.

À sua esquerda o edifício da extinta Western Telegraph onde meu pai expedia telegramas quando queria rapidez. Eu achava muito importante o hall do edifício e os caixas que recebiam as fórmulas telegráficas dos remetentes.

Ainda à esquerda da edificação, a Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus. Paralela, a Rua da Guia, no passado reduto da prostituição. O quadrado vai se formando. De volta à Torre, em frente à Capitania, o prédio neoclássico que pertenceu ao Serviço do Patrimônio Histórico situado ao lado da Avenida Alfredo Lisboa, que o recifense só chama de Cais do Porto. Ali se vê os acidentes geográficos que deram o nome à cidade: Arrecife dos Navios.

Caminhando pelo cais, chega-se ao Marco Zero, fincado no centro de um Largo de onde se tinha acesso aos navios de passageiros ancorados nos diversos armazéns. Esse Marco Zero eu conheci sob o nome de Praça Barão do Rio Branco. Ali se tomavam catraias para se chegar aos grandes barcos fundeados ao largo.

Há alguma coisa de diferente naquele lugar. Por lá pairam espectros dos antigos habitantes da cidade que ali se reuniam nos grandes acontecimentos.

É nas proximidades da Torre Malakoff que sinto toda a pujança do Recife, no dizer de Carlos Pena Filho, metade roubado ao mar, metade à imaginação.

 

À Beira do Caminho

 

Fui assistir ao show do Erasmo Carlos. A última vez que o vira foi na segunda metade da década de 60, na extinta TV-Rio, em Copacabana. O Tremendão continua o mesmo: a voz fraca, músicas mais faladas que cantadas. Veste jeans, um colar aparecendo na camiseta, um casaco de couro, e pulseira hippie dos anos setenta. Os cabelos continuam grande, mas ficou careca. Não pinta o branco exuberante o que me fez mentalmente lhe cumprimentar. Enquanto canta, balança o corpo desengonçadamente, e tem dificuldade em se agachar. Isso eu entendo perfeitamente.

Alterna um rock mais pesado com velhas canções. A plateia, em sua maioria sessentões, se agita ao escutar baladas do início da carreira do compositor. Quando cantarola Gatinha Manhosa o rapaz que fui, cheio de sonhos e esperança, vindo não sei de onde, adeja pela plateia, e ao passar por mim não me reconhece.

Então, de maneira insólita, me emociono. O espetáculo termina e enquanto vou embora observo os presentes, um pouco triste, mas sentindo que por alguns momentos voltei ao tempo em que éramos todos jovens.

 

A Casa Materna

 

No dia em que sua mãe faria cem anos, se viva fosse, o homem retorna ao lar. Tudo está como antes, com exceção do pequeno gramado que ele aparava, agora extinto. As rosas, entretanto, são mantidas da mesma maneira, graças ao desvelo da irmã mais nova.

Ao passar pelo portão sentiu a antiga atmosfera familiar, suave e perene. A sala com os mesmos móveis, o vime persistindo em se manter novo. Os quartos com as velhas camas. Na cozinha rescendem os cheiros conhecidos. Numa pequena estante, livros antigos. Pega uma coleção de História do Brasil, de Rocha Pombo, que sua mãe lera muitas vezes. Ela lia tudo que lhe vinha às mãos e gostaria muito de ter sido professora de História.

Conhece cada recanto da morada com minúcias. O quarto que era seu mantém a escrivaninha em que se sentava para estudar, ler e sonhar.

Na sala o vetusto mostrando Jesus com o coração descoberto, cheio de flechas. Quando lhe perguntara – ainda menino – o que significava aquelas setas ela dissera que a cada pecado cometido, nós lançávamos uma flecha no coração Dele. Toda vez que pecava, o menino pedia perdão a Jesus por isso.

Empurra a porta de tela da cozinha e passa para o quintal onde o pé de Jambo-do-Pará e a Goiabeira ainda permanecem, embora sem o vigor de antes. Constata o óbvio: as árvores estão como ele, caminhando para o decesso. No oitão, a mangueira vizinha derruba no jardim inúmeros manguitos, que sua mãe adorava.

Ali habitava a delicadeza transmitida por ela a todos com que conviveu. Morreu há quatro anos, e naquela noite – e em muitas outras – o homem, embora sexagenário, sem ela sentiu-se sozinho na vida e perdido no mundo.

 

04/11/2012

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Extraídas de Torre Malakoff. Paulo Afonso de Paiva. Recife, PE – Brasil: Edição do Autor, 2014.

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