CAMBONO (PARTE XXXII)* | Clauder Arcanjo**

Pausa para as bodas de Ivan

 

Para Dulce Cavalcante

 

Aqui estou, caro leitor, de volta. Novo, de novo. Enfim, graças ao bom Deus, eu consegui resistir ao ataque da muriçoca do capítulo anterior.

É mais do que chegada a hora de retornarmos ao núcleo da minha novela-folhetim: a saga do herói Adamastor Serbiatus Calvino, o nosso valoroso Cambono.

Como vocês ficaram sabendo, estavam, mais de trezentos licanienses, à porta da Farmácia do Galvino, em busca de conhecimento acerca dos boatos que cercavam o nosso protagonista.

— Por onde anda o nosso prefeito, minha gente?! A coisa já virou caso de segurança nacional! — disparava, entredentes, o líder da oposição; sempre a pedir o impeachment do alcaide, por qualquer risco de fósforo.

— Isto vai acabar atraindo a fúria santa dos céus sobre o nosso sagrado chão. Valha-nos, Nosso Senhor Jesus Cristo! — temia o beato Salustiano Celestial, sempre a anunciar o fim do mundo, a torto e a direito.

— Desgraça maior é a mancebia da tua única filha, beato “disgramado”. Seu carola de uma figa! — vazou, anonimamente, do meio da multidão.

— Quem foi o filho de uma mãe que falou isto? Apareça, se for homem, seu bosta! — irado, o beato Salustiano corria os olhos injetados à cata do agressor. Na mão direita, a palavra santa de Deus; na esquerda, o punhal afiado: a “palavra” profana do homem.

— Vamos manter a ordem e o silêncio, meu povo! Se não, acreditem, o professor Galvino, amigo dos bons modos e da paz, não vai esclarecer as questões que nos afligem — as palavras do Seu Zequinha Coletor obraram o milagre da conciliação e da concórdia, pelo menos nos próximos cinco minutos.

Sete horas da manhã, em ponto, parecia um comício, tanta era a quantidade de pessoas reunidas frente à farmácia.

Meia hora depois, os portões principais se abriram. Opa!… Desculpe-me, empolguei-me com a história e falei como se estivesse narrando a abertura do estádio para um jogo de futebol. Também, leitor, o escritor se empolga, e, algumas vezes, a sua pena toma rumos desconhecidos. Para isto é que existem os revisores e que se necessita do tal do copidesque.

Continuemos. Hoje, não estou para divagâncias, nem muito menos para elucubrações. A prosa enxuta, concisa e exata é o mote que me inspira, me ilumina e me guia. Não me deixarei navegar nos oceanos das digressões descabidas, nas poetiquices da forma, no flanar a esmo pelas ondas revoltas do acaso e pelas procelas do imprevisto. Serei claro e sem adjetivações. Um Graciliano Ramos redivivo. Apesar de cearense, dei férias à minha porção José de Alencar.

O quê?!… Eu já me entreguei à esbórnia do verbo!?…

Você, rabugento leitor, é mais chato de que os meus críticos. Mais desleal do que a mais renitente das tosses brabas, mais espezinhador do que o espinho mais afiado. Seu cretino!…

Tudo bem, tudo bem. Já estou de volta, seu filho de um verbo descarnado!

Ao abrir a porta da farmácia, o Antônio do Eurico, assistente de vendas, teve um susto daqueles.

— Se for para comprar Viagra, vou logo avisando: só temos duas caixas de resto — anunciou com sua voz enfermiça.

A multidão, que guardava uma paz armada, quase que invadiu o recinto.

Mais uma vez, Zequinha Coletor abrandou os ânimos com sua serena admoestação:

— Sentem-se todos. O Professor Galvino Arcanjo irá proferir uma aula, respondendo a todas as nossas dúvidas. Por favor, sentem-se.

A legião de exaltados cuidou de sentar-se à frente da farmácia.

Aproveitando o movimento, uma pessoa passou por trás de todos e, de forma imperceptível, entrou no estabelecimento, dirigindo-se ao balcão. Falou baixinho ao balconista, pedindo-lhe uma medicação.

Na saída, também tentando o anonimato, quis sair pelos fundos. No entanto, sua presença foi notada.

— Alguém furou o bloqueio. Vejam, ele está tentando escafeder-se pela porta que dá para o Mercado Público.

Quando três dos presentes tentaram correr para pegar o fugitivo, eis que surge o cabo Jacinto Gamão. Com a sua conhecida fúria de pau-mandado, ele correu os olhos pela multidão, como se os ameaçasse com o seu conhecido, e fornido, cacete de juá. Pegou o fujão pela gola da camisa, tirando o cabra do chão, soprando-lhe nas fuças:

— Para onde você pensa que vai, meu filho?!

Mais do que ligeiro, cabo Jacinto meteu a mão no bolso do sujeito e sacou o fármaco. Na sua visão, o objeto da questão.

— Isto é para o meu futuro sogro, amigo! Ele casará amanhã e anda, por demais, fraco das forças. Como a minha sogra, viúva e um pouco gasta pelos anos, já não é um pixotinha, estou levando o azulzinho para injetar ânimo nas carnes daquele cabra frouxo.

— Nome e endereço do nominado? — inquiriu Jacinto. Como se estivesse num inquérito na delegacia.

— O nome do noivo é Ivan Perobino Abuelo. Quanto à minha sogra, a viúva, seu nome é Senhora Therezinha Ferreira Valladares de Jesus; com dois “h” e com dois “l”.

— Com dois “h” e com dois “l”? Que frescura mais besta é esta, seu cabra? Esta mulher é das estranjas? — o cabo Jacinto Gamão assuntou, já com os miolos fervendo, e com a mão no companheiro cacete de juá.

Do meio da multidão, alguém gritou:

— Este sujeitinho que está falando com o cabo Jacinto é o baiano, minha gente! O tal do macumbeiro que está botando a perder o coitado do Adamastor Serbiatus Calvino, o neto de Dona Parmênides Augusta!

Menino, correu um vento de alvoroço no meio da turba ignara, que a coisa ia descambar para uma revolução popular. Os homens foram se abaixando, cada um arrancando uma pedra de paralelepípedo da rua; as mulheres, subindo as saias, foram limpando as unhas afiadas: armas preferidas das damas de Licânia, em especial quando combinadas com a língua carregada de fuxicos, palavrões e urros.

Percebendo o risco do motim, o cabo Jacinto Gamão passou a gritar:

— O Coronel mandou dispersar. Deixem tudo com a Lei. Vão pra casa! Xô, xô, xô!… Se não o pau vai cantar, ouviram? E vocês sabem como o meu cacete de juá a-do-ra amaciar lombo de gente.

Nada de surtir efeito. De olhos injetados, a multidão caminhava, armada e em volúpias de ódio, em direção ao indigitado.

Quando a cena descambava para o exercício da (in)justiça popular, o conhecido linchamento, Seu Zequinha Coletor anunciou:

— Vejam como o nascente está bonito! Vem chuva grossa, meu povo!…

Nas ribeiras de Licânia, chuva é coisa mais valiosa do que milagre. Todos deram as costas para a cena da prisão do baiano macumbeiro, o Senhor Formigão Gallo dos Anjos, mulato alto, filho de São Salvador da Bahia.

— Estas torres anunciam chuvarada para o final da tarde! — foram as palavras do Manuel Alves, metido a meteorologista das bandas de Licânia.

— Tire os seus olhos do nascente, Manuel! Se não, você vai secar as nuvens! — achincalhou, algum (des)conhecido, da calçada da bodega do Edir, a confraria dos pimbas-brancas.

Nisto, alguém gritou:

— O macumbeiro fugiu!

Cabo Jacinto havia sido atingido por uma notória cacetada na cabeça e se encontrava quedo; ressonando, placidamente, como um inofensivo menino.

Fiquemos por aqui. Próxima semana, continuarei com tal mistério; porém, prometo, eu casarei o Ivan Perolino Abuelo. Que Deus permita!

Bom domingo.

 

Cambono é uma novela-folhetim de Clauder Arcanjo publicada aos domingos na Gazeta do Oeste (Mossoró – RN), no caderno Expressão, coluna Questão de Prosa.

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