“Dissonante”* | Leonam Cunha**

MUSA REVOLUCIONADA

 

Apenas beber-te

Assim

– Fora a poesia complexa!,

Sem céu

Sem diabo –

Assim.

Apenas tragar-te

Assim

– Desmetrificadamente

Como no mundo, tudo –

Assim:

Ameaçando o perfeito

Pondo ao centro

Um tiro torto.

Assim

– Sem prisões,

Sem delongas.

Apenas beber-te

Tragar-te

Musa Revolucionada.

 

GLOSA

 

Meus avós herdam, da seca,

As rachaduras.

Meus pais têm as mãos

Calejadas

Eu só sei que nasci

Dentro do mar

 

E carrego às secas

O mar de mim.

 

VERSOS FOTOGRAFADOS DO ABISMO

 

Apoio-me sobre os braços de uma cadeira.

Os braços quebram.

Eu arreio – de barro

 

Penduro-me nas nuvens. Céu e mais outro!

As nuvens somem.

Eu arreio – no chão de areia

 

Arreia em mim tudo isso!

Dá-me chicotadas

E rapa-me a cabeleira

 

No entanto, tentarei calçar o tijolo do poeta!

Matar-me-ão sete vezes por dia;

Noutras cometerei suicídio.

Todavia, continuarei tentando…

 

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Extraídos de Dissonante, Leonam Cunha. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

** Contato:  leonam_cunha@hotmail.com