“Ginnungagap: Um Livro de Contos e Começos” | Haroudo Satiro Xavier Filho

Alice*

 

O sol desfilava em encantadora veste de luz.

No chão, Alice tratava o solo com desprezo. A enxada abria espaço para a horta, não uma plantação, mas um canteiro.

Ela suava. Seus braços agiam como extensão da ferramenta. Duros, escuros, sedentos, finos. Como os fiapos de carne que devorava na janta rala.

 

A menina dormia na escuridão. Chorando entre lençóis velhos, perfumados de raiz e folhas do sertão.

Ouvia a mãe respirando.

Com o ar, parece entrar uma floresta de espinhos longos, soltos, então, em gemidos intensos.

E seu choro crescia e afogava o mundo em sonhos.

 

O galo acordava Alice, num canto que sempre lhe parecia o último.

A menina pegava na enxada e brincava com o galo, fazendo que o ia acertar.

O pássaro velho, descolorido, pulava e batia suas cinzas asas, da cor de um dos olhos que na velhice se perdeu.

Mas parecia feliz, assim como a menina, que não ouvira ainda seu último canto de despertar.

 

A mulher coloca a comida da velha.

Raízes, pequenos frutos, aveia que comprou na vila, leite que ganhou do vizinho que a enxerga como vaca.

A menina come com a mãe. O olhar preocupado se despeja em gestos de cuidado, ajudando a pele esticada a achar a boca desdentada.

Carrega para o quarto o cansado saco de ossos.

Despeja o volume no estrado e olha a estrada seca.

Sussurra no ouvido peludo e vai.

 

Na venda, a mulher atrai olhares.

A carne não se esconde na sujeira do rosto e do vestido.

A mulher do dono da venda a olha com desprezo. Sabe ela, desde menina, que fora ontem e amanhã será.

E seu marido imita cão em beira de feira.

Pergunta-lhe das flores, da mãe, puxa o livro quase desfiado, de fiados, que são tantos.

A mulher escolhe sem pressa, em seu corpo de menina, com olhos emprestados pela velha.

Pega comida, uma boneca, absorventes, sabonete, uma panela… olha para o sutiã e, sem jeito, o mede por fora do vestido e o inclui na compra.

O homem anota sem pressa, mas sabe o olhar da esposa nas costas e não pia nem murmura.

Dessa vez.

 

Alice caminha em longas pernas, que, diminutas, chegam à casa sem jardim.

Olha a enxada e o canteiro. Olha o galo. Olha a porta e vai ver a mãe.

O corpo morto se mexe com o balanço.

Dura, a velha abre os olhos e sorri.

A menina acaricia as rachaduras que imitam a terra sob o sol.

Sorri, faz comida, fala da vila.

O silêncio lhe responde com olhares e voracidade.

Só abre a boca para comer e depois pergunta:

– O canteiro?

– Já?

– Por favor.

A menina olha triste para a mãe idosa.

Seu mundo era casa, era jardim.

Mas não era música. Era sol e chão.

E foi pegar a enxada.

 

O galo chamava a menina todo dia, que acordava, brincava e preparava o canteiro, que ficava fundo e sulcado e comprido, todo dia mais.

O vizinho olhava as pernas da mulher que labutava a terra e, como quem não quisesse nada, ele levava presentes.

Ausentes eram respostas que o mimassem.

Mas ele vira a mãe e sabia bem a dor da solidão. Esperaria.

E os dias iam, e o canteiro parecia se despir para a abraçar.

 

Ainda molhado era o lençol daquele dia, quando o galo, rouco, cantou uma última vez.

Serviu para a mãe no almoço e levou a velha para passear.

Deitou no canteiro e não levantou mais.

A velha chorou e esperou.

Chegando a noite, a menina enterrou bem a mãe para que animais não lhe devorassem a carne.

Deitou cansada, saudosa do galo.

 

A menina acordou feliz.

Foi para o canteiro, e viu, devagar, a mãe nascendo.

Não mais que uma muda, que se tornaria um dia, mulher.

Sem pensar duas vezes, deu nome a flor: Alice.

E saiu para a vila.

Precisava de um novo galo.

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* Extraído de Ginnungagap: um livro de contos e começos, Haroudo Satiro Xavier Filho. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2013 – (Coleção Novos Talentos).