“Radiola: Conversa de Música” | Damião Nobre*

VIRUNDUNS**

Quem nunca cantou a letra de uma canção cometendo erros absurdos e virando motivo de gozação que atire a primeira pedra. Os erros são explicáveis e decorrem de vários fatores. Quem canta o faz da forma que entendeu. A estranheza da letra, o uso de gíria e termos de uso restrito em determinadas “tribos”, a dicção do intérprete, o conhecimento linguístico de quem ouve e reproduz, a idade, a cultura são fatores que modificam o entendimento. Se não temos dialetos, os regionalismos também dificultam a compreensão de determinados termos e, assim, palavras usadas no Rio Grande do Sul, por exemplo, podem se tornar às vezes incompreensíveis no Rio Grande do Norte e vice-versa. Na música regional os problemas podem ser maiores, mas na chamada MPB o problema também existe. Djavan, com suas letras bem características, é um exemplo significativo de confusão no entendimento.

Muita gente deve se lembrar do episódio ocorrido com o jogador Beto, num jogo da seleção brasileira. Quando os microfones da televisão captaram sua voz, ele cantava o hino nacional mais ou menos assim “O hino, o inspirano e os magisplacius…

Pois bem, foi exatamente inspirando-se no hino nacional (Ouviram do Ipiranga às margens plácidas) que surgiu o termo VIRUNDUM para designar letras de músicas mal entendidas e cantadas de forma errada. Há três anos, existe um blog na Internet onde o tema é este, com contribuições as mais engraçadas.

Além dos motivos já citados, o uso de termos de outra língua pode confundir o ouvinte como o “l’argent” de Amigo é pra essas coisas, mas parece não haver termo que provoque mais confusão que Trenchtown, da canção Alagados, antigo hit do grupo Paralamas do Sucesso. Cada pessoa entende e canta de um jeito. A propósito, Trenchtown é um gueto localizado na Jamaica, onde morou Bob Marley e título de um de seus discos mais conhecidos. Para competir com o virundum de Alagados, somente o sucesso Noite do prazer, da banda Brylho, que tinha como vocalista o cantor Cláudio Zoli com o verso “tocando B. B. King sem parar”, transformado, via de regra, em “trocando de biquíni sem parar”.

Há várias histórias que tentam explicar a origem do termo VIRUNDUM. Uma delas dá como seu criador, o jornalista Paulo Francis, um dos mais importantes intelectuais do Brasil, no final do século que passou, especialmente na época da ditadura, fundador e um dos principais colaboradores do jornal O PASQUIM, uma verdadeira lenda na história da imprensa e da comunicação em nosso país. Pode ser.

Finalizando, vou enumerar alguns dos mais famosos e conhecidos virunduns.

Divirtam-se.

Eu sou aquele que errou (Máscara Negra)

Meu frango olhando a primavera (Meu pequeno Cachoeiro)

Quitéria tem um peixe (Borbulhas de amor)

Tira essa bermuda que eu quero ver seu sexo (Como eu quero)

Ao sair do avião, um divisor, um irmão (Açaí)

Cortando o fio dental (Como nossos pais)

Scubidu dos sete mares (Descobridor dos sete mares)

Os alpinistas estão chegando (Os alquimistas estão chegando)

Respeita o ôi de baixo do seu pai (Respeita Januário)

Um homem pra chamar Dirceu (Mesmo que seja eu)

Biologia, eu quero uma pra viver (Ideologia)

 

Publicada na edição de nº 26, de março de 2006.

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* Damião Nobre de Medeiros é médico e membro da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte. Contato: damiaonobre@hotmail.com   

** Extraído de Radiola: conversa de música, Damião Nobre. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.