“Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico”* |Claudio Willer

NOTA INTRODUTÓRIA

 

Este ensaio foi preparado durante meu pós-doutorado em Letras sobre o tema “Religiões estranhas, misticismo e poesia”, como bolsista da FAPESP, no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Entregue em novembro de 2011, teve revisões e recebeu acréscimos em 2012.

Coincidindo com o início do meu pós-doutorado, havia relido Visões de Cody, de Jack Kerouac, que acabara de sair na edição brasileira. E descobri The Search of the Millennium, de Norman Cohn, sobre rebeliões religiosas medievais. A leitura quase simultânea contribuiu para que eu enxergasse bastante anarquismo místico em Kerouac e outros integrantes da Geração Beat. A citação de Visões de Cody que inicia o presente ensaio, “Tudo me pertence porque eu sou pobre”, serviu como ponte entre o registro alucinado do beat e o levantamento de episódios medievais pelo historiador. Dentre esses, especialmente a heresia do Espírito Livre. Por isso, a frase tornou-se um mote, repetido em artigos sobre Kerouac e a Geração Beat escritos desde então, devidamente consignados na bibliografia.[1] Aqui, a versão mais extensa do que vinha tentando transmitir.

Estava familiarizado com a Geração Beat havia décadas. Além de traduzir Ginsberg, produzir artigos a respeito, dar palestras e cursos, já havia encaminhado ao editor meu Geração Beat, publicado em 2009. Mas o novo empreendimento intelectual me levou a ler ou reler toda ou quase toda a obra de Kerouac. A maior parte deste ensaio trata dele. Isso se justifica pelo papel central que desempenhou na formação e difusão do movimento; por interpretações de sua obra poderem ser projetadas em outros beats; e, principalmente, por Kerouac ser substancioso. Em face de restrições que ainda persistem, procuro destacar seu valor. Também examino outros beats: Ginsberg – focalizando afinidades e relações de oposição simétrica com Kerouac –, Corso, McClure, Di Prima, Snyder, Ferlinghetti, Burroughs.

Reclamar de dificuldades de acesso à bibliografia deve ser um chavão nesta modalidade de pesquisa. Norman Cohn observava, na década de 1960, que a heresia do Espírito Livre era pouco estudada em comparação com outras rebeliões e dissidências religiosas, a exemplo daquela dos cátaros da Provença. Aparentemente, a situação continua a mesma: a consulta a coleções recentes de ensaios sobre a Idade Média[2] ou as enciclopédias sobre religião[3] mostrou que não há quase nada a respeito, embora se encontrem substanciosos ensaios sobre os cátaros. De um modo geral, antinomismos e combinações de misticismo e transgressão, especialmente licenciosidade, continuam um assunto à margem – à exceção de estudos sobre misticismo judaico, graças ao impulso que receberam de Gershom Scholem. Isso também acontece com o gnosticismo de Prisciliano, na Península Ibérica. Sua caracterização como seita licenciosa pode ser encontrada em um filme extraordinário: Via láctea, de Luis Buñuel. Mas livros que o examinam como tal são inencontráveis.

Completar a bibliografia sobre a Geração Beat é mais fácil. Kerouac e Ginsberg foram integralmente editados – no caso de Kerouac, com a publicação, a partir de 2000, de textos antes dados como perdidos, do manuscrito original de On the Road, passando por E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques, sua parceria com Burroughs, até o recente O mar é meu irmão.[4] Mas um poeta da qualidade de Philip Lamantia quase desapareceu do mercado.[5] Tipos especialmente originais como Bob Kaufman têm difusão restrita. De Gregory Corso, há edições. Mas algumas citações do autor de Bomb são afetadas por um desses fenômenos do mercado editorial: tenho os originais de uma excelente seleção preparada pelo poeta Márcio Simões; seria lançada por uma editora que, contudo, desistiu. Enquanto não se resolverem as negociações de edição permanecerão neste ensaio citações de Corso e Simões órfãs, editorialmente falando.

Examinar religiosidade e misticismo no âmbito da Geração Beat não é novidade. John Tytell, em seu pioneiro ensaio de 1976 sobre Ginsberg, Kerouac e Burroughs, Naked Angels, já os havia associado ao gnosticismo. Semelhante associação reaparece em obras que tratam especificamente da doutrina gnóstica, a exemplo do posfácio de Richard Smith para The Nag Hammadi Library in English, a reunião de escritos gnósticos preparada por James M. Robinson. Li ensaios mais recentes sobre esse tema, o da religiosidade entre os beats. Um deles é Gregory Corso: Doubting Thomist, de Kirby Oslon; tratando, portanto, especificamente daquele poeta – mas com aportes valiosos ao tema geral, a Geração Beat, inclusive em tópicos de crítica literária, e não só de teologia. Outro é The Bop Apocalypse: The Religious Visions of Kerouac, Gisberg and Burroughs, de John Lardas. Propositadamente, fiz com que a encomenda do livro chegasse quando meu texto já estava quase finalizado. Lardas adota um enfoque spengleriano. Já havia, então, relido A decadência do Ocidente e observado divergências entre a cosmovisão de Kerouac, spengleriano declarado, e aquela do historiador alemão; em particular, no modo de avaliar felás, camponeses pobres, e na discussão da “segunda religiosidade”. Onde Lardas e outros enxergaram Spengler, encontrei Platão, ou categorias platônicas. Especialmente, após uma releitura do Fedro, o valor conferido à tradição e ao arcaico; a correlata valorização da transmissão oral; a identificação do conhecimento à anamnese; o retorno ao mito.

Normalmente, estudos literários adotam um quadro de referências, um paradigma. No ensaio de Lardas, o paradigma é Spengler; no de Olson, o tomismo. Meu principal paradigma, penso, é o que já escrevi sobre a Geração Beat, especialmente o livro homônimo de 2009; e sobre misticismo transgressivo e religiões estranhas na poesia, em minha tese de doutorado e sua edição em livro, Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna, de 2010. Indiquei com a partícula cf. os trechos em que me repito ou retomo o que já havia publicado.

Os agradecimentos a quem contribuiu para a realização deste trabalho começam pela professora Viviana Bosi, minha supervisora de pós-doutorado; por um anônimo e generoso parecerista da FAPESP; pelo professor Edu Teruki Otsuka, da USP, autor de um parecer mais que elogioso. Abrangem meus fornecedores de bibliografia beat: além daqueles consignados no prefácio da minha tradução de Ginsberg (sempre reiterando que a contribuição de Roberto Piva, leitor voraz, foi inigualável) e de Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna, devo mencionar Romulo Pizzi, Mauro Jorge Santos, Assis de Mello, Márcio Simões, Carlos Figueiredo, André Telles do Rosário e Henrik Aeshna.

Ao lançar Geração Beat, em 2009, afirmei em entrevistas que o livro era uma continuação, uma nova etapa do que vinha escrevendo. Direi o mesmo se me perguntarem sobre este Os rebeldes. Pretendo prosseguir. Assunto não faltará.



Extraído de Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico, Claudio Willer. 1ª ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.

(1) São os artigos na coletânea Letras em revista, de 2009, nas revistas Cult e Reserva Cultural e no jornal O Estado de S. Paulo, todos de 2010.

(2) Por exemplo, os sete enormes volumes de The New Cambridge of Medieval History, de 2005, organizado por Paul Fouracre (Cambridge University Press).

(3) Como a monumental The Encyclopaedia of Religion, com seus dezesseis volumes, coordenada por Mircea Eliade, de 1987.

(4) Em citações usou-se a edição inglesa (2011). (N.E.)

(5) Afinal, Lamantia foi ou não foi beat? Ele dizia que não. Está fora de registros importantes. Mas está presente em outros; e a ligação real, tal como documentada por Kerouac em Anjos da desolação, autoriza-me a incluí-lo; mais ainda porque sua poética e sua devoção religiosa, tal como comentadas aqui, são caso particular de traços e qualidades partilhadas pela beat como movimento.