“Uma garça no asfalto”* | Clauder Arcanjo**

Uma garça no asfalto

 

 As cidades andam espantando as cores de suas ruas, escorraçando a felicidade de suas calçadas, ofertando seus ventres ao estéril deus asfalto, erigindo estátuas aos mitos das alturas dos prédios gaiolas, prédios arranha-céus e prende-vidas.

Parece que queremos banir o humano de nossas províncias, transformando nossas avenidas em moradas das máquinas, enterrando de vez o que lembra o poético, o telúrico, aquilo que lembra gente.

Não pense o leitor desavisado que isto é coisa de cidade A ou B. Não. O movimento é bem orquestrado, vem invadindo, insidiosamente, todos os cantos deste nosso querido Brasil. É claro que algumas cidades já apresentam sinais avançados do tipo de câncer a que ora me refiro, motivo de desabafo desta minha crônica. Nas megalópoles, quadro terminal. Nem pense em sorrir por entre suas ruas, nem ouse saudar alguém com um singelo bom-dia, nem se arvore no papel de se sentar em uma de suas calçadas. Se você assim o fizer, receberá a pecha de desocupado, louco, maluco, ou coisa que o valha. E os nossos jardins? Nada de vaso de flores nas varandas! Begônias nas lapelas, nem pensar (muito de nossos jovens têm de correr aos dicionários e enciclopédias para conhecer a beleza dessa rosa). É o progresso!, gritam os bobos da modernidade. Por que perder tempo com rosas?! E as substituem pela frieza tétrica das margaridas desenxabidas de plástico. O insípido e descolorido progresso!

Estamos, infelizmente, nos acostumando com essa vida. Vemo-nos a acordar com o barulho enlouquecedor de um despertador estressado, de fazer nossa higiene matinal às pressas, de tomar nosso café na rua, de sair de nossas casas às carreiras, sem tempo de uma bênção aos nossos filhos, sem nem pensar em um carinhoso beijo em nossas esposas. É a velocidade dos tempos globalizados, gritam em nossos ouvidos os surdos para a vida. Eu é que não me acostumo com esse condicionamento.

Rumamos para os nossos trabalhos, onde achamos perda de tempo uma conversa amiga, onde um computador nos isola do trabalho em equipe, sítio da rotina acachapante que viola o prazer do trabalho feliz.

Muitos de nós nem voltamos para almoçar em família. Um tal de um “fast-food” nos espera: um sanduíche, que, apesar de todas as tentativas enganadoras do marketing avassalador que nos despejam todos os dias, só tem gosto de palha. O sabor já foi despedido desses troços, que teimam em chamar de comida, faz tempo. Nada de suco, nada de sentar para comer. Não, tão somente uma refeição rápida, em pé, sem conversa, correndo de volta para o batente.

Ao fim do expediente, vazios de tudo, nos dirigimos para casa. Entramos exaustos em nossos lares, jogamo-nos em uma poltrona funda, e somos invadidos pelas verdades da televisão. Verdades empacotadas. É só abrir os ouvidos e deixarmos os arautos dos novos tempos resumirem tudo e despejarem as mentiras travestidas de certezas em nossas mentes. Jantamos separados de nossos filhos, que se separam em seus quartos. A noite cai, o sono vem e… tudo de novo no outro dia.

Mas, ontem, algo diferente cortou este meu mundo.

Dirigia-me para o trabalho, mecanicamente, pensamento sem rumo, quando um vulto de uma brancura ímpar circunvoou sobre meu carro.

Não era um branco qualquer. Era o de uma pureza quase angelical. Voando na minha frente, chamando minha atenção. Parei e refleti. “Uma garça perdida neste mundo de asfalto!”.

A garça fez a volta logo à frente, veio em minha direção, abriu suas asas majestosas e seguiu, sobrevoando as casas, banhando de branco as pálidas residências de nossa cidade.

Um riso se me alargou no rosto, e pensei: “Bendita garça, veio provar que o branco ainda existe!”.

Segui para o trabalho com aquela g(r)a(r)ça no peito e aquele branco nos olhos.

 

* Crônica extraída de Uma garça no asfalto, Clauder Arcanjo. Taubaté, SP: LetraSelvagem, 2014.

** Enviado por Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com