“Chão dos Simples”* | Manoel Onofre Jr.

AS DOS SANTOS**

 

            As meninas dos Santos punham em rebuliço o casarão do seu pai, Prof. Sizenando dos Santos, nos tempos áureos da pacata cidade de Serra Nova. Levavam a vida em saraus, reunidas as cinco na sala da frente com Mariquinha, a caçula, no meio, tocando violão. Modinhas saíam, então, de suas bocas e ganhavam docemente a noite da rua. Algum passante poderia dizer: “Moças vivedeiras”.

Dez anos depois, tais saraus não mais se realizavam. E o que é pior: as meninas, para desgosto próprio, continuavam solteiras em absoluto. Quitéria Velha, grande língua de trapo, disse num resmungo, certa vez, emoldurada na inevitável janela: “Essas moças não se casam nem mesmo para que a gente tenha o que falar neste oco do mundo”.

Lá na igreja matriz a imagem de Santo Antônio, por motivos óbvios, cobria-se de fitas e flores. Acrescido de cores extras na sua vestimenta, Santo Antônio parecia egresso do baile de carnaval do Barracão. A propósito, Lucena chegou a comentar isto para a mulher do Coletor, recebendo uma rabanada, seguida da expressão: “O senhor é um herege”.

O fato é que, apesar das fitas – ou por isso mesmo –, o casamenteiro não se dignava casar as meninas dos Santos. Certo dia, porém, amanheceu, com certeza, bem humorado, pois Mariquinha tornou-se noiva de um caixeiro viajante de nome Abdias. A senhorita Mariquinha, convém assinalar, não era mais uma “flor de moça”. Já Abdias constituía muito pouco do que se convenciona dizer “rapaz apessoado”. Davam-se bem, portanto.

Com a notícia, toda Serra Nova arreliou-se; não se comentava outra coisa nas cozinhas e salas-de-frente, fosse no Jacu ou no Caminho do Cemitério. Debaixo do pé de fícus do Dr. Aristóteles, o caso, como não podia deixar de ser, era motivo para as conversas.

Enquanto isso, o noivo ia e vinha nas suas andanças de vendedor de remédios, hospedando-se, quando em Serra Nova, na casa do Prof. Sizenando.

Marcou-se o casamento. Comprou-se o enxoval.

Um belo dia, Abdias partiu de viagem para convidar, pessoalmente – disse ele –, a parentela da capital.

Esta viagem não teve volta, para desespero de Mariquinha – a esta altura com um projeto de homem no ventre – e para decepção das matronas serranovenses que já adiantavam na imaginação a cerimônia nupcial. Felizmente, o caso ficou esquecido. Mariquinha abortou discretamente. E a animação da Festa da Padroeira, naquele ano, foi espetacular.

Passaram pela cidadezinha trezentos e tantos dias de tédio…

Numa linda manhã de abril – como diria Dr. Chiquinho mais tarde no cemitério – o coração do Prof. Sizenando deixou de bater. Consternação geral. Choro, dobre de finados, irradiação constante da Marcha Fúnebre de Chopin pela amplificadora.

Das filhas do Professor, Mariquinha, que guardava a cicatriz de tragédias não muito remotas, sentiu em dobro a perda. Quis entrar num convento. Não consentiram, e ela passou a usar longos vestidos pretos, semelhantes a hábitos de freira.

 

Na hora do ângelus anda no ar de Serra Nova uma paz convidativa a pensamentos de eternidade. A gente local, porém, não se incomoda com isso. Conversa pelas calçadas, falando mal da vida alheia.

O sino bate azul-profundo, grave, grave. Daqui a pouco passará Mariquinha dos Santos, riscando o quadro da praça com o seu vestido preto na direção da igreja.

Das irmãs dos Santos é a que, na verdade, ainda vive. A outra restante – Filó – está caducando e com a mania de dizer nomes feios que não se sabe como foram aprendidos.

 

______________________

Enviado por Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com

** Extraído de Chão dos Simples, Manoel Onofre Jr. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.