“Livro do Desassossego” |Fernando Pessoa | Narrado por João Paulo Araújo*

“Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O

som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram

na própria alma, como a esperança constante que se desfaz

no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas

choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam

os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se

me tornou o segredo da noite e a confidência do abismo.

Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam

em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos

nos alagamentos da emoção!

Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido,

aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amamos e perdemos

e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido,

que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos

quando sentíamos; o que era uma memória e críamos

que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e

fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na

praia, no decurso noturno do meu passeio à beira-mar…

Quem sabe sequer o que pensa, ou o que deseja? Quem

sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere

e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda

e choramos, e não foram nunca! Como uma voz solta da paz

deitada ao comprido, a enrolação da onda estoura e esfria e

há um salivar audível pela praia invisível fora.

Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim

vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como

uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos,

batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio noturno

à beira-mar!”

 

Livro do Desassossego – Fernando Pessoa – Narrado por Joao Paulo Araujo

 

(PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Seleção e Introdução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 188)

* Narração: João Paulo Araújo. joaopauloaraujo@live.com