“Mattinata”* | Fernando Monteiro

1

 

Primeiros sinais da manhã

na madrugada ainda de mão fechada

sobre a garganta das árvores.

 

No escuro antes da alba

de flautas geladas,

flui mais que o orvalho

nublado do piar de pássaros:

uma, duas, três vezes

três aves até ser incontável,

por toda parte, um parque

de canoros fantasmas

na hora da nossa sorte,

amém.

 

Morte de horas atrás,

azar recente do ontem

irreal, absurdo

 

(como a palavra “azar”

que não dá azar quando

repetida por azar).

 

Azar, azar, azar.

Piar, piar, piar

e retinir do bronze de sinos

na distância matinal,

enquanto tão próximas

são as dissonantes aves

com o silêncio da solidão

a dois no quarto.

 

Um oculto coro

perto

longe

como agora estamos,

unidos

separados

apesar da palavra “amem”

sem o assento de Deus

para sempre esmagando-a

desde o trono da divindade

vazio como a dispensa dos pobres.

 

 

2

 

Os excitados passarinhos (assim,

no diminutivo das penas)

sabem do coração cerrado

da noite que passou?…

 

Na manhã de empoeiradas árvores,

o rio claro de presente

sucede o escuro mar

do que já foi,

do que ficou para trás,

e não podem saber sobre seus anúncios de cantores

soarem mais fúnebres do que o dobrar

das matinas aos dois ouvidos humanos

divididos pelas sombras do que foi dito

e do que foi calado antes da alba,

na hora anterior ao amanhecer

dos proclamas festivos

de aves invisíveis

como o canário da infância.

 

De harmonia furtiva,

a manhã nova continua o breve instante

de acreditar matinalmente em Deus,

para logo maquinalmente desacreditar

Dele,

no seguimento do dia ateu das longas

iniquidades permitidas se tudo

é apenas e tão somente

o presente interminável

que finge contar as horas

sem contas a ajustar

com nenhuma divindade boa,

antiga,

nova,

impiedosa,

misericordiosa

etc.

 

3

 

Essa também é a hora

de claramente perceber

que tudo se passa na fixidez

do permanente agora

paradoxal nas palavras

ontem

anteontem

semana passada

mês findo

ano passado

décadas atrás…

 

Não há fuga do tempo

que não apague

o que nem parecia

vir a ser sob as ondas

já borrado?…

 

Qual era a praia alegre

do ultrapassado dia

datado no falso calendário?

 

“Nos separamos na manhã

de tanto de tanto de ano nenhum”,

está escrito no diário

que será esquecido num navio

afundado na mais funda fossa

dos oceanos da infelicidade.

 

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* Extraídos de Mattinata, Fernando Monteiro. Sol Negro Edições – Natal – RN e Edições Nephelibata – São Pedro de Alcântara – SC, 2012.