“As Crônicas de Aia” | José Augusto Nobre de Medeiros

Medo de alma

 

Nos dias de hoje já não é tão comum as pessoas ficarem conversando sobre almas e assombrações, talvez devido ao avanço tecnológico e também ao esquecimento das tradições. Mas antigamente eram muito comuns em rodas de crianças e de adultos as histórias sobre almas e assombrações. Nas cidades do interior eram mais comuns ainda.

São tantas as lendas urbanas sobre assombrações que em um só livro seria incapaz o relato de todas elas, mas algumas ficaram mais famosas e muitas pessoas juram de pé junto que passaram por aquelas situações.

Morei em frente ao cemitério do Alecrim durante mais de vinte anos, e minha mãe ainda permanece morando na mesma casa. As lendas e histórias se sobrepunham ao adágio popular e muitas pessoas não tinham a coragem de nos visitar com medo do cemitério.

Contava uma dessas lendas que um taxista pegou uma passageira, muito bonita e elegante, na saída de uma festa em um clube da época, Assen, América, Aero ou Albatroz, tanto faz, e ela mandou seguir para o bairro do Alecrim. Chegando em frente ao cemitério, mandou parar em frente ao portão da Rua Fonseca e Silva, e o motorista estranhou, pois não havia casas por ali, e perguntou onde ela morava. Ela foi logo dizendo “moro aqui mesmo”, descendo do carro e entrando no cemitério sem nem abrir o portão. O motorista disparou e parou no bar Quintandinha, na Praça Gentil Ferreira, morto de medo. Essa mulher ficou conhecida como A Mulher de Branco, e, vez por outra, se falava nela para fazer susto a alguém.

Pois bem, eu nunca fui muito medroso e essas histórias, se bem contadas, até me arrepiavam, mas não metiam medo. Tanto que jogávamos bola à noite na rua lateral do cemitério, em frente à atual casa de minha mãe, quando ainda nem havia calçamento, e, quando a bola caía dentro do cemitério, apenas eu e Amaro, que era bem mais velho, tínhamos coragem de ir buscar, enquanto os demais ficavam tentando nos amedrontar.

Mas certa vez tive um susto danado. O cine Rio Grande exibia uma sessão aos sábados à noite que se iniciava às vinte e três horas. Era uma sessão em que só passavam bons filmes, e ao sair por volta de uma hora da manhã, tudo estava deserto, muito diferente de hoje, que é o horário que muitos estão saindo para as baladas.

Fui assistir ao filme “A sentinela das portas do inferno”. Era um filme de muito suspense, onde uma freira vivia em frente a uma janela de um apartamento e um padre descobria que neste apartamento existia um portal do qual ela era guardiã e que se houvesse descuido as criaturas do inferno invadiriam a terra.

Havia pouquíssimas pessoas no cinema e saí muito sugestionado, entrando rapidamente no carro e disparando para casa, que era pertinho, sem deixar de me arrepiar ao passar em frente ao portão do cemitério.

Na nossa casa havia um pequeno beco lateral de acesso a uma vila e também ao quarto onde eu dormia, e chegando tarde da noite era por lá que se entrava. Parei o carro na calçada e desci rapidamente sem nem olhar para os lados. Quando estava tentando abrir a porta lateral do meu quarto, algo passou voando por entre as minhas pernas e só escutei o barulho do portão de ferro da vila batendo contra a parede. Se fosse cardíaco teria morrido naquela hora. Que susto!

Nesse pequeno espaço de tempo de no máximo trinta segundos, as cenas do filme, a história da mulher de branco e tantas outras passaram como um raio em minha memória. De volta à realidade, ainda consegui escutar lá no fundo da minha razão o miado de um gato que tinha sido o autor da façanha.

Nunca mais fui a uma sessão da madrugada no Rio Grande.

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Extraído de As Crônicas de Aia, José Augusto Nobre de Medeiros. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

** José Augusto Nobre de Medeiros é engenheiro químico e grande contador de estórias. Contato: aquaservice@uol.com.br