Fanzine da NAUvoadora*

Doce

Maria 

Tenho uma canção

Que alimenta um ferro quente

Entrando na cabeça

E vai devorando tudo que somos,

Me dê o poder do sonho

Para ter vida própria.

Quem sou?

Aquele que ama sozinho,

Sofre por dois,

Chora por todos,

Eu estou lá dentro

Dos escombros

Formado por chuvas de verão

(Senhorinho)

 

“Carpideira”

Que se reparta o corpo.

E a pele desvista-se

revelando a parte rubra,

a renda de veias suturadas

pela areia. Que as órbitas

vidrando detrás dessas portas

outrora abre fechando-se

agora soterrando a luz,

sob o cadeado da pálpebra,

nos sulcos da face,

ceguem a sede que matou-te

e teus filhos, rosário em fronteira

de ti, girando, dança e mosaico,

cantem para esquartejar-te

sobre estas quatro patas

tu que és na mesa posta

o pão de barro. Peça de ossos

e nervos. Mata também

a fome da tua prole

não foge animal em transe

não volte ao pó antes

não antes que teu sangue

talhe nessas bocas uma pedra

e duas serpentes.

(Jonatas Onofre)

 

Post-mortem

debruçado na sacada

diante do cemitério

de prédios e automóveis

eu ainda espero teu

espectro de ar esquelético

atravessar a cavalo

o hemisfério norte

pra inverter meus

pólos magnéticos

ou me dar um beijo

de boa sorte.

(Camillo José)

 

* Poemas extraídos de NAUvoadora – Revista Literária de Igarassu. Enviado por Danuza Lima. Contatos: danuzakryshna@gmail.com e www.nauvoadora.blogspot.com