Diásporas*

30/10/10

Patricia Tenório

Há momentos em que a vertigem me consome e imagino meu corpo ocupando o lugar do amanhã.

“Ao se transportar aos limites do dizer, numa mathesis da linguagem que não quer ser confundida com a ciência, o texto desfaz a nomeação e é essa defecção que o aproxima da fruição.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Soletro as palavras na tentativa de expurgar feridas, absorver sentidos, deixar o rio que por mim passa e faço parte do mesmo rio.

A escritura em voz alta (…) o que ela procura (numa perspectiva de fruição) são os incidentes pulsionais, a linguagem atapetada de pele, um texto em que se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, não a do sentido, da linguagem”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

“A dor pode ser-lhe um despertador excelente, com o qual Deus faz você despertar de seus sonhos irreais ou de seus sonos profundos sem nenhum resultado.

A dor pode aproximá-lo de Deus, se é que você sabe sofrer a dor, pois do contrário talvez lhe sirva para afastá-lo mais de Deus.

Tudo depende da maneira como você se decidir a suportar a sua dor.” (Cinco Minutos de Deus, Alfonso Milagro)

Naquela página, encontro a letra de outros tempos, em lápis ainda subscrevo o pensamento onde calei um dia, no instante em que me reconheci inteira.

 “A arte forma um reino intermediário entre a realidade que faz barreira ao desejo e o mundo imaginário que o realiza.” (Sigmund Freud em O interesse da psicanálise – citado em Arte e psicanálise, Tania Rivera).

httpv://www.youtube.com/watch?v=QG1Y05p2ezw

“O domador de bolas de sabão”**

Aquieto o coração mais um instante; um desejo que em mim pulsa emana os poros cheirando a jasmim.

“Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: teu Deus reina!” (Isaías 52, 7)

“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” (Isaías 55, 10-11)

Para desalojar o que penso ser sábio em mim, certo em mim, começo tudo de novo na esperança de me entender um dia.

“Reerguerás as ruínas antigas, reedificarás sobre os alicerces seculares; chamar-te-ão o reparador de brechas, o restaurador das moradias em ruínas.” (Isaías 58, 12)

Escolho rumos por onde ir, caminhos novos que poderei trilhar.

“A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória que não se pode medir. Porque não olhamos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas.” (São Paulo em 2 Cor 4, 17-18)

““Na natureza”, escreve Goethe, “nunca vemos nada isolado, mas tudo em conexão com alguma outra coisa que está diante, ao lado, sob e sobre ela.”” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Quebro a rotina com pedaços de mim que retiro aos poucos; eles vão congruindo, formando um rosto embaçado; não o reconheço ainda, mas pulsa em mim uma certa transparência. 

“Para Eisenstein, a montagem é escrita figurativa, assim como os ideogramas chineses – como os rébus no sonho, diríamos.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Espalho pelo Universo o tom da minha essência; aguardo reverberações, ressonâncias do instrumento que se afina até o final dos tempos.

“São os intervalos entre os movimentos e não os próprios movimentos, nem as imagens em movimento – que constituem o cinema.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

 

Intervalo

(Extraído de Grãos, Patricia Tenório, 2007)

 

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando     embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.                                      

 O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

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* Dispersão de um povo pelo mundo.

   Apresentado no IV FESTLATINO – Recife – PE,  10/11/10 – sob o título “Cinema e Literatura: um diálogo na experiência de Patricia Tenório”.

**  “O domador de bolas de sabão” inaugura uma nova linguagem. Adaptado do livro de contos “Diálogos”, este curta foi criado como se pinta um quadro, exploro a tentativa ilusória do artista em apreender a Arte. Com Kleber Lourenço, produção e figurino de Jorge Féo, texto, edição e direção de Patricia Tenório.