Nilto Maciel & Patricia Tenório em Literatura sem Fronteiras*

Dois capitulinhos

Nilto Maciel

Confúcio Galvez lembrava um galo: penas coloridas e esvoaçantes, bico afiado, esporões de aço, andar de príncipe britânico, voz de cantor de ópera. No entanto, não pensava em homem, não bicava ninguém, não esporava nem o vento, não morava em castelo e mal sabia “Touradas em Madri”. Arriscava umas frases: “Eu fui às touradas em Madri e quase não volto mais aqui”. Desafinava; riam dele. E cresceu assim, com ares de ave e chão de estrelas. Sempre de bico aberto: “Minha vida era um palco iluminado”. Andava pelo morro, subia e descia ladeiras, de olho nas cabrochas com latas d’água na cabeça, “Sobe o morro e não se cansa, lá vai Maria”. Experimentou rabiscar letras e rimas. As melodias, noites mel dormidas. Talvez doces, quem sabe azedas. Também sambou, desengonçado feito mamulengo. Viajou a Recife e encontrou o povo a pular nas ruas. Diante do frevo, extasiou-se: queixo caído, vestimenta de lorde, pés em transe. As meninas pareciam franguinhas ao sol do meio-dia. Misturou-se aos dançantes e se abrigou à sombra do homem da meia-noite e dos mil e um bonecos de pano. Entre passos e pulos, terminou grudado a certa pintassilga. Passado o carnaval, buscou outras mulatas, cavalgou mulas sem cabeça pelos sertões de Minas, perdeu-se em labirintos, maravilhou-se à frente da dança frenética dos bilros do Ceará e se fatigou de tanto vadiar. Então se casou com Camilinha Petres. E tiveram muitos filhos.

E assim se encerra esta história colorida. Porém, se inicia outra. A tragédia. Pois o tal Confúcio Galvez resolveu mudar de vida, ao se sentir relegado aos cantos da própria casa. Por todos os lados, televisões, computadores, celulares, viagens de Camilinha (tornada Camilona e gorda). Confúcio procurou as penas coloridas e nada encontrou, a não ser uma peruca dourada. E foi embora pra Pasárgada. Tempos depois, aborrecido de sonhar, voltou às ruas da infância e da juventude.

Em outro fevereiro, se enfeitou de urubu e conheceu Dalva de Oliveira, senhora alegre, mas nem tanto.  E lhe contou num dia o equivalente a cem anos de solidão. Casara-se com fulano, blablablá; passara a infância na serra da Meruoca, blebleblé; nascera filha, bliblibli; o fulano vivia com sicranas e beltranas, bloblobló; beberam umas cervejas, blublublu. O bicho velho se recordou, então, dos tempos de terreiro cheio de galinhas e franguinhas e quis ser galo de novo. No dia seguinte, reparou bem a filha de Dalva, grávida de alguns meses. Conversaram e cantaram durante noventa dias e noventa noites, até nascer linda menina. E, alguns anos depois (para encurtar o blablebli), ocorreu o capítulo trágico da vida de Confúcio. Blo-blu.

Fortaleza, 4 de fevereiro de 2014.

 

Sessão da tarde

Patricia Tenório

 

27/02/14

Era um ladrão bem desligado. Esquecia as armas do ofício em casa, na mesa de bar, na cantina da escola, onde trabalhava meio expediente para ajudar com as contas do mês.

Não era fácil se lembrar do roubo de cada dia. Então anotava, um a um, na caderneta de papel pautado. Ficava assim imaginando um roubo novo, inventivo. Não queria que suas vítimas o achassem monótono, repetindo as mesmas artimanhas do artista da TV.

Assistia à sessão da tarde toda vez que chegava da escola, onde havia fritado tantas batatinhas, feito quantos hambúrgueres e estava cansado de não sair do lugar. Mas o ator era charmoso, usava um bigode fino e luvas pretas de borracha.

E se ele enfim parasse, no meio da multidão, e exigisse o prêmio por esquecer que era ladrão todo dia, e todo dia inventasse uma nova história de um possível roubo? Ele foi assim, bem decidido, e não se sentia mais desligado do mundo, pertencia ao mundo agora, feito a antena da TV.

No meio da praça, no meio da multidão, deu uns três tiros para cima, e com o megafone sobre o bigode fino, as luvas pretas de borracha, gritou em alto e bom som.

– Se não me derem um milhão, eu me mato!

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