Antologia Poetas da Capunga*

Carla Vanessa Sales

 

O todo sem a parte é todo… Mas prefere contar com a parte

(Por um Gregório de Matos convertido e agora apelidado “Boca do Céu”)

 

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte se faz todo, sendo parte,

Onde a parte? Onde o todo?

 

Em todo Corpo está Deus todo,

E, mesmo Todo, chama ao Corpo cada parte,

E feito em partes todo em toda parte,

Em qualquer parte sempre fica o Todo.

 

Pé, mão, olho, todo sentido seja do Todo parte,

Pois, feito Jesus Cabeça do Corpo todo,

Por isso é Todo – e também é parte.

 

Mas nós, parte única do todo,

Todo dia sejamos, sem partir, só parte,

Membro-parte desse Corpo-todo.

 

 

Diógenes Oliveira

 

Da minha amada,

não gostaria de largar primeiro

para não deixá-la só,

sofrendo a saudade da solidão,

Ela certamente dirá o mesmo.

Mas a prioridade da liberdade das vidas

Apraz o Senhor a resoluta decisão.

 

Paradoxo

 

A vida é um percurso rápido.

Passa célere como uma sombra

perpetrando subitamente a morte.

É uma veloz transição contrastante

que afronta a negação:

começo-fim,

claro-escuro,

verso-anverso

aleive-verdade.

Como num quadro de giz

ao transpor a esponja do destino,

apaga as riquezas, o orgulho, a vaidade

e vão-se os encômios,

sem parentes,

sem amigos,

sem amores.

 

A morte também não é o fim.

É o começo de uma vida metafísica.

Assim como o casulo que foi túmulo da lagarta

a sua cavidade é o berço da borboleta.

 

O fim justifica o começo de tudo.

 

Fernando de Mendonça

 

Súplica

 

Olha-me.

 

Pés fincados, terra seca

Alta dor, mão erguida

Interno peito, um clamor

 

Eis-me.

 

 

Mar

 

O Espírito que paira sobre ti

Viu

As palavras e versos

Que a ti dedicados foram

Que dos teus mistérios surgiram

Por ilustres e desconhecidos

Sujeitos que pensaram viver.

 

Que o Espírito olhe para o agora

Eu

Ser tentante

Na luta para descrever o não dito

Esperança iludida que ouçam

O que tenho de mais particularmente meu.

 

Ah, deixa-me mergulhar

Deixa-me misturar em ti

Ser onda bravia em formação

Para um dia à frente

Ser lembrado pelos mais experientes

capitães.

 

Deixa-me flutuar cândido

Vibrar no interior úmido

Do mistério que acompanhou o início

Confundindo a origem da vida

Como um feto na criação

Deixa-me.

 

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Antologia Poetas da Capunga, Organização Inaldo Tenório de Moura Cavalcanti e Leny de Amorim Silva Malheiros. Recife: Comunigraf Editora, 2009. Contato: nandodijesus@gmail.com