Poemas* de Iacyr Anderson Freitas**

O NÚMERO DA DOR

 

Tão de leve principia

que em nada, quando começa,

lembra o calor de seu dia,

armado de tanta pressa.

 

Armado de nervos, quinas,

um ardor de mil arestas,

capaz de aguçar esquinas

no inferno de suas festas.

 

Inferno puro: sem mais

entendimento que o guarde

– livre de incêndios e sais –

na memória, cedo ou tarde.

 

Ali se impõe, bem ali

ostenta sua oficina,

como um cego que sorri

do zero em sua retina

 

e outros zeros cultivasse

no vão dos ossos, na pele,

em cada curva da face,

antes que o tempo revele

 

que é todo feito de zeros

mesmo o maior dos embates,

a própria vida, seus meros

e minúsculos engates.

 

EXÓRDIO DA SERPENTE

 

Surpreende-se a serpente

em cada naco de frase.

Ora vagando, urgente,

ora fixa em sua base.

 

Palmilha de leve a fronte

para adubar o terreno.

Crava as estacas da ponte

Que a salvará do veneno

 

(pois que a si mesma se priva).

Que essa serpente bem sabe

do risco de estar cativa,

ao sabor de velhos sabres.

 

De seu princípio, que é quando

o próprio espaço vacila

e de leve vai trilhando

um calvário posto em fila,

 

de seu princípio, talvez

a indesejada das gentes

não guarde duas ou três

miragens, mas a serpente

 

desconhece quem a guarde

em cada fração de frase.

Fustiga-lhe a mesma tarde,

como um sol que nunca atrase.

 

COLAPSO

 

Age o veneno no instante

em que se esvai toda imagem.

Nem gume nem mar: adiante

É dor a menor aragem.

 

Dor funda, intransitiva,

capaz de entranhar na face,

deixando-a em carne viva,

mas não há sangue em seu passe:

 

só o vermelho em metades

– de um rubor que mal renasce –

acusa o rol das herdades

que se envolvem nesse enlace.

 

Do veneno, apenas dor

(onde era memória) resta.

E esquiva, por onde for,

tal dor será fel e festa.

 

Festa para seu prazer:

para a própria dor, somente.

A ninguém basta entrever

O quanto pode a serpente.

 

O quanto pode a palavra

que o condenado carrega.

O mineral em que lavra

sua cartilagem cega.

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Extraído de Ar de Arestas, Iacyr Anderson Freitas, Fotografias: Ozias Filho. 1ª Edição. São Paulo: Escrituras Editora, 2013.

** Iacyr Anderson Freitas nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1963. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora, o poeta obteve também, pela mesma instituição, o título de mestre em Teoria da Literatura. Publicou diversos livros de poesia, ensaio literário e prosa de ficção, tendo recebido várias premiações no Brasil e no exterior. Contato: iacyrand@gmail.com