Poética* | José Rodrigues de Paiva**

Para Maria da Conceição Rodrigues

 

            A mais remota lembrança que tinha de qualquer propensão para a Arte datava da infância. Perguntara-lhe o pai, certa vez, o que é que ele queria ser quando crescesse. Procurou nas poucas opções de que provavelmente teria ouvido falar nas conversas das pessoas grandes e disse resoluto:

 

– Engenheiro.

 

O pai gostou e disse:

 

– Então é preciso que te comeces a preparar desde já. Toma estas folhas de papel e vai projetando aqui as casas e edifícios que vais construir quando fores engenheiro.

 

Aquela, e muitas outras tardes, o menino as gastou desenhando dezenas de edifícios tortos, cheios de pequenas janelas quadradas. Arranha-céus imaginários de uma cidade de papel. Mas não havia entusiasmo naqueles desenhos sem vida. Cidade fria, fantasmagórica… Não, não a construiria. O pai via os desenhos e falava-lhe com ar aprovador, embora acabasse sempre por dizer que era preciso melhorá-los. Cidade fantástica da minha imaginação. Não te construirei jamais. Não levantarei dos teus prédios pedra sobre pedra. Não cruzarei as tuas ruas tortas projetadas pelo lápis da infância sobre o papel do tempo…

Viu mais tarde, já abandonado o projeto da engenharia por absoluta falta de vocação e crescente incapacidade para as matemáticas, um grupo de moças e rapazes carregando cavaletes e telas, tintas e pincéis, procurando, cada qual, lugar adequado para se instalar, já escolhido o ângulo predileto da paisagem. Tinham vindo num ônibus que fora estacionado embaixo das grandes árvores à beira do açude. E, junto à água alguns, outros mais distantes, uns interessados em captar alguma coisa do outro lado, para além da extensão da água, outros mais atentos em observar a massa sombria das árvores da mata de que se via um pedaço ao fundo da outra extremidade do açude, todos se foram acomodando. O ônibus tinha o letreiro de uma escola: Belas Artes. O grupo, barulhento ao chegar e enquanto descarregava os equipamentos, silenciou, disperso, concentrado cada um na sua tarefa. De uma distância plausível o menino via os movimentos que faziam, manejando pincéis, espremendo bisnagas, misturando cores com a espátula, e maravilhou-se de puro encantamento quando viu surgir, lentamente, do nada que eram as telas, formas, volumes, sombras, cores, brilhos da paisagem que se transferia do mundo para aqueles retângulos em que cada um mergulhava, aplicado e atento como num ritual. Gestos da maravilha ou do milagre. Também ele os queria fazer, e, dias depois, empunhava uma pequena paleta com porções de tinta de aquarela e ia acumulando no seu quarto diversos retângulos de cartolina para onde lhe pareciam que estava transportando o mundo ao seu redor. Quando verificou que a paisagem se esgotava como possibilidade de pintura, diversificou a dimensão da sua arte pintando sobre azulejos, já com outras tintas e outras “técnicas” e associou a imaginação à observação livresca para encher mais folhas de cartolina e azulejos com pagodes chineses, coqueirais, velhas caravelas de descobridores aproximando-se das terras do mistério.

Mas um dia, eis que lhe surge um novo encantamento, um novo apelo da Arte ao espírito onde ela habita ou deveria habitar: ouviu, na velha casa onde morava, uma música que se evolava suavemente de algum instrumento que alguém tocava ali por perto. Atinge-o a música, a harmonia dos sons, o mistério da invisibilidade do músico e do seu instrumento, a suavidade triste da valsa lenta que segue devagar, pelo espaço até a desaparição dos sons. Quem toca, tão docemente, num acordeom invisível, numa tarde de domingo que termina, o encanto da valsa? Quem vem embalar com a suavidade da Berceuse, que só mais tarde saberias ser de Brahms, o adormecer do dia?

E logo o menino quis também um instrumento. Pediu-o ao pai, que então lhe disse que, com certeza, ele não tinha vocação nenhuma para a música, porque se a tivesse já teria feito uma flauta do caule de um bambu. Mas deu-lhe o instrumento e ele aprendeu a tocar, mergulhado cada vez mais no encantamento dos sons. Schubert, Mozart, Liszt, Brahms da inocente Berceuse, gênios encantados da Arte. Tocar como eles, sonhar ser um deles. Mundo da fantasia mágica, da aspiração, do sonho, do imaginar-se em breve transfiguração de luz.

Ô música do meu encantamento, permaneceste no menino para sempre, mesmo depois de guardado o instrumento, quase definitivamente, quando ele foi substituído pela palavra, pela poesia, arte também de sons e cores a certa altura descoberta como real e verdadeiro apelo do mais profundo ser, ocupando esse lugar de privilégio. A mãe, que gostava de o ouvir tocar, queixava-se:

 

– Abandonaste a música… Nunca mais tocaste nada. Agora só lês e escreves…

 

Mas ele não tinha abandonado a música. Transfigurara-a, apenas, na arte da palavra, arte integral em que se busca a harmonia entre os sons e as cores, o ritmo e as imagens, o andamento adequado à cadência do estilo, o corpo do texto ao espírito que nele deve estar.

 

Por isso continuas a ouvir todas as noites, enquanto escreves em busca do poema nem sempre fácil, nem sempre exatamente dado pelos deuses, os magos do teu distante e infantil encantamento. E são eles, com a sua Música infinita que paira para muito além da dimensão do tempo, que algumas vezes te vêm dar a palavra que queres, a imagem necessária e uma vaga melodia de que precisas para o teu poema. E lá, na antiga casa, que já não é a mesma do despertar da infância para a Arte, tua mãe guarda ainda, embora desafinado e velho, esse pobre instrumento, de onde, quem sabe, um dia, se precisares purificar o coração, voltarás a tirar os sons da Berceuse e adormecer com ela os sonhos que não pudeste realizar.

 

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Extraído de As águas do espelho, José Rodrigues de Paiva. Prefácio: Lourival Holanda. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2008.

** José Rodrigues de Paiva, poeta e ensaísta, nasceu em Coimbra, Portugal, em 1945. É professor de Literatura Portuguesa do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Contato: rodriguespaiva@uol.com.br