“D’Agostinho”* | Patricia Tenório**

Capa de Dagostinho - Patricia Tenório

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A partir dos estudos de Confissões, de Santo Agostinho, procurei refletir poeticamente ou poetizar filosoficamente. Através das imagens agostinianas, fizeram-se eco partículas cintilantes de luz, reminiscências que eclodiram em forma de poesia.”

 

QUEDA LIVRE

 

 

Permaneço quieto

Diante do assombro

Primo

A escuta dos olhos

Abertos

Atentos

Ávidos

Desmesuro em mim

Tua sabedoria

Inquieta

Tangente

Perambulando os limites do corpo

Acariciando as paredes da alma caio

Profundo

Calmo

Quieto

O perigo me ronda

Na escuta dos olhos

Abertos

Atentos

Ávidos

 

 

O TEJO-PODEROSO

 

 

No rio Tejo

Corto caminho

A um lugar seguro

Agarro as margens

Como se fosse isca de anzol

Como se fosse peixe de pescar

Como se fosse haste de bambu

 

Carrego nos ombros

O mundo inteiro

Como se fosse Deus Todo-Poderoso

Como se fosse bicho que não teme

Como se fosse homem que não sofre

 

Volto às margens

Como se nunca tivesse nascido

Como se sempre soubesse quem sou

Como se não houvesse a morte

 

PALAVRA

 

 

O silêncio diz

 

Eu te respeito

Eu te saúdo

Por favor

Me ajude

 

Não

Sim

Talvez

 

Pode seguir caminhos tortos

Pode levar à beira da escuridão

Por mais que diga

O silêncio cala

Por mais que cale

O silêncio expande

 

O silêncio diz

 

O que deveria ser escondido

E por trás da cortina de veludo

Provar a essência

Do que é

Palavra

 

DELFOS

 

 

Procuro a verdade

Nas vírgulas dos livros

Nas pausas do tempo

No canto mais limpo

No som mais agudo

Na cor mais brilhante

 

Procuro a verdade

No peito que arde

Na lágrima que rola

No sal dos meus lábios

No beijo que cala

 

Procuro a verdade

Na face que mostra

Na dor que palpita

Na tua palavra

No silêncio

Do meu coração

 

PEGADAS

 

 

No texto que leio

No beijo selado

Na mão que me estendem

No pão repartido

 

No dia brilhante

No sopro do vento

Na fruta macia

Colhida no pé

 

Pegadas na areia

Desenhos no gesso

Desenhos na lua

Estrelas contadas

 

Por mais que me esquive

Estão todos

Ali

Outrora

Num fio de tempo

Chamado presente

 

D´AGOSTINHO

 

 

Os lábios sussurram beijos

De um beija-flor

Assustado com os próprios olhos

Nas pétalas do girassol

Girou em si

E não percebeu

O pôr do sol longínquo e reticente

 

Às margens de mim

Persigo a imagem

Do que fui um dia

Para beber da sabedoria

Na audácia de uma criança

 

Cubro-me em púrpura –

Desvendar olhos alheios

E fazê-los enxergar o que em parte sinto

Mas bato o pó das sandálias

E caminho até a eternidade

 

ESCARLATE

 

 

Dá-me a luz da espada

Para devastar a imensidão do teu saber

Alargar nos limites da ignorância

A tentativa de saber quem és

Saber quem sou

Saber por quê

Saber para quê

 

Diz-me uma palavra e calo

Permanecerei séculos a auscultá-la

Poli-la

Pensá-la

E num dia cor de cinza

Uma fagulha escarlate

Em mim se revelará

 

BAIRRO DAS LARANJEIRAS

 

 

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

 

Pães, peixes

Índios partidos

Na multidão

 

Nem ouse

Não sonhe

Quebrar minha bacia

Parideira de cobras

Ratos

 

Pensar por si

Não é o mesmo

Que pensar

Somente em si

E você caiu

Uma vez

Atrás da outra

Nos seus pecados

Sem saber

Sem arrepender

Quando soube

Pela primeira

Pela segunda

E na terceira

O galo cantou

Anunciando a encruzilhada:

Bem aventurado o simples

Porque será perdoado

Bem aventurado o humilde

Porque em seu coração

Farei reinado

 

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

 

ESPÍRITO SANTO

 

 

Augusta angústia

Me move

Inquieta

Se espalha

Da cabeça aos pés

Esbarra

Na incompletude do ser

Na incapacidade de amar

Na ignorância da luz

Me move

Inquieta

Se espalha

Da cabeça aos pés

Repousando armas

Suspirando aromas

De bem-me-quer

Suave

Fresta de um outro mundo

Onde o espírito se aquieta

 

 

CREPÚSCULO

 

 

Cai na terra

Seca

Plana

Insípida

Gotas de orvalho

Calmas

Lentas

Úmidas

Ao meu redor

Borboletas

Cores

Vida

Além da vida

Bem e mal

Caminhos e escolhas

Que não fiz

Não quis

Não fui

Nas veredas

Entremeei palavras

Castas

Curtas

Crentes

De um outro sol

Outra aurora

Outro ser em mim

 

SÃO PAULO

 

 

Quando tua luz aplaca meus sentidos

Sinto despir-me

De máscaras e vaidades

Podes ver-me por inteiro

Com falhas e virtudes

E gosto do que vejo

 

Vejo alguém fraco

Que se transforma com o teu poder

Que escala montanhas

De ódio

Rancor

E alcança o ápice do perdão

 

Tu és minha bandeira

Que empunho

E sou mais forte

Mais Tu

Menos a mim

 

Abandono e ultrapasso

A vida que me destes

 

CARA OU COROA

 

 

Nas palavras não ditas

Revelei

No grito contido

Na faca cortando

A carne

As veias

Estancando furor

Aplacando brilho nos olhos

O secar da boca

 

No engasgo da luz

Te permiti crescer

Trouxe à tona

Os bens preciosos

A cara

A coroa de espinhos

É minha

A glória do nome

É teu

 

O DOM E O FRUTO

 

 

Com

A mais bela rosa

Risco

O teu corpo nu

Beijo

Cada uma das células

Latejantes

Incongruentes

 

Entrego

Em taça dourada

O néctar do desejo

Antigo

Ancestral

Em que tu em mim farias

Gruta úmida e rara

Para apagar dos pecados

A solidão solícita

 

Do meu ser

Tens o inteiro

Cada margem

Cada escuta

E podes

Se apropriar do que digo

 

AVERRÓIS

 

 

Salta

A curva dos teus olhos

Na órbita oculta

Dos sonhos alheios

 

Cala

A pérola preciosa

Entre o ser

E a aparência

Entre a casa

E a viagem

 

Conto

À minha maneira

Penso

Pelo avesso

Abranjo

O outro lado

 

Vivo

Indiferente

Ao que as pessoas pensam

Independente

Do que me farão

Impaciente

Do que me aguarda

 

 

A FILHA PRÓDIGA

 

Cansaram

As palavras repetidas

O saber infundado

A experiência alheia

 

Procuro

A paz de um instante

Acolhida na fé

Doce

Paciente

 

O ninar da criança

Nos braços

De pai e mãe

Fim de recomeço

Poeira batida

Olhar no horizonte

Brisa de outono

Ao som da primavera

 

Aqui estou

Ele se glorifica

Na minha passagem

 

LA ISOLA

 

 

Daquela matéria fui feita

Daquela matéria amada

Nem por mim

Nem por ninguém

De um nada

Me encontro

E pronto

Eu me vejo só

 

Sobre os rochedos

Nas cachoeiras

Abrindo passagens

Entre as sereias

Visgo cantante

Cor de arco-íris

Que no céu acaba

Não me deixa

Potes

Toques de Midas

Apenas entardecer

E incerteza

 

Finco o pé

No âmago

No abismo

No nada

Em que me encontro

E pronto

 

Eu me vejo só

 

 

 

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Extraídos de D’Agostinho, Patricia Tenório, Editora Calibán, Rio de Janeiro, 2010.

** Patricia Tenório é escritora desde 2004.  Escreve poesias, romances, contos.  Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Acaba de receber o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançar em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2014) se prepara para cursar o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.