Doce amargo* | Newma Cynthia Cunha

colher de sopa

 

SETEMBRO DE 1984. PASSAVA DO MEIO DIA QUANDO Carlos Flosi abriu os olhos naquele início de tarde de um domingo ensolarado. Lembrou-se da menina que beijara na noite anterior: magrinha com curvas perfeitas. Língua diferente das outras mulheres que já havia beijado; um pouco fina, pontiaguda, meio desajeitada. Prometera levá-la à praia quando a deixou de madrugada na porta de casa no subúrbio do Rio. Pensou ser melhor que o acaso se encarregue de promover um novo encontro no pequeno bar do reduto boêmio, mas no final, decidiu não contar com a sorte, inventaria uma desculpa que justificasse o atraso, quem sabe, voltaria a beijar aquela boca rósea quase infantil. Se ainda quisesse seguiriam a praia para que pudesse ver os detalhes do corpo franzinho num pequeno biquíni verde, estampado ou vermelho, cores da estação que combinariam bem com o tom de pele.

Parou em frente da casa, desceu do carro, bateu palmas até que viu surgir uma mulher de meia-idade com aparência cansada, magra, branca, rosto afilado e cabelos finos. Ela não está, foi à praia. Senhor quer deixar algum recado? Falou recuada sob o portão de madeira esfregando as mãos no vestido surrado e olhar baixo, esboçando ar de curiosidade a respeito do jovem bem vestido, de sorriso aberto à procura da filha.

 

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Extraído do primeiro capítulo de Doce amargo, Newma Cynthia Cunha. Editora Bagaço (Recife/PE/Brasil), 2013. Uma pequena “colher de sopa” deste livro que estou devorando, desta escritora que muito iremos ouvir falar… Contato: newminha@hotmail.com