A biblioteca dos bichos* | Jair Farias**

“O que não está nos livros me aborrece”, dizia Juan.

“É por isso que eu mantenho meus bichinhos por perto”, completava. Por seus bichinhos, ele queria dizer toda aquela variedade de animais que dava forma ao quintal de sua propriedade. Diziam na cidade que até um lobo-guará ele criava lá dentro.

            Mas a verdade é que em cidade pequena se diz muita coisa. O que se sabe mesmo é que o velho Juan era um homem de hábitos noturnos, por isso ninguém o via, e assim ninguém também o chamava. Seu apelido era coruja-das-torres, ou mais popular Juan rasga-mortalha, tanto por ter os hábitos corujescos quanto por parecer fisicamente com uma, mais precisamente a das-torres, que os de crença mais mística chamavam de rasga-mortalha, e acreditavam ter uma presença mágica.

            Juan rasga-mortalha, como o povo dizia, não teve filhos. Enviuvou-se cedo, e aí seu isolamento agravou-se. Mas quem conviveu com ele antes da morte de sua esposa pôde contemplar sua biblioteca, maravilhosamente ordenada, por gênero e ordem alfabética, que ocupava mais da metade do espaço da casa. Era onde ele passava a noite.

            Mas depois da tristeza que o acometeu, não abriu mais a biblioteca aos amigos, ou a possíveis amigos, mesmo que desse para ver as luzes acesas à noite, e o barulho do homem a mudar os livros ou a folheá-los. Em cidade pequena, ouve-se muito também.

            O problema é quando as coisas passam do limite, quando se começa a ouvir além da conta. Juan não trabalhava, ninguém sabia de onde tirava seu sustento, sua comida, e o que mais o povo queria saber, a comida de seus animais. Muitas bobagens eram ditas sobre o ermitão, mas daí a se ouvir que durante o dia ele assumia a forma de animal para caçar e assegurar seu alimento e a porção de seus bichos, as coisas estavam indo longe demais.

            Isso tudo começou quando um fazendeiro local contava, surpreso, a história de como um carcará invencível tinha caçado alguns de seus coelhos. Para daí a no mesmo dia, à noite, se sentir o cheiro de coelho assado saindo da propriedade do velho rasga-mortalha. Outros já comentavam também de uma jaquatirica que aparecera caçando galinhas dos galinheiros da cidade, sempre de dia, e com freqüência uns coelhos sumiam novamente. Pelo visto é o que o velho gosta, carne de coelho, comentavam.

            Com a nova lenda se espalhando entre todos da cidade, agora que ninguém se arriscava a tentar contato com Juan, que outrora fora um bom amigo da comunidade. Os mais velhos muito bem se lembravam do homem culto, reservado, que entendia dos animais, não ia muito à igreja ou às festas, mas trazia bons músicos de outras cidades, e chamava quase todos que conhecia para assistir. “Era uma música diferente, que não tem por aqui, mas era bonita. A gente esperava até a próxima vê que ele fosse trazer os músicos de novo”, assumia um velho conhecido.

            O último contato a ser feito com a comunidade, anos depois, foi quando já não podia cuidar bem de seus bichos. Contratou dois homens para ficar na propriedade. Um o ajudaria a manter o seu quintal e o jardim, e o outro a biblioteca, quem sabe assim não poderia esticar por mais uns anos sua vida, e passar por eles lendo, ou em meio aos animais.

            Só deu um aviso, “quando eu morrer e vierem me enterrar, vocês trancam a biblioteca e deixam o quintal do jeito que ta, com meus bichinhos”, falou sério, “do jeito que ta, sem nada menos ou nada mais, de lá arranjo um jeito de voltar pra terminar o que comecei.”

            Nas conversas entre os dois empregados de Juan, o assunto era sempre o mesmo, a que ponto chegou a loucura do velho, “olha esse tanto de bicho”, “deixar os livros aqui”, “voltar dos mortos!”.

            Mas enfim chegou o dia, não muito tempo depois, em que o velho Juan morreu, e uma comitiva de outra cidade, seus parentes distantes, veio buscar seu corpo para enterrá-lo. “Um bando de coruja-das-torres, meu Deus, que coisa, como são parecidos”, observou uma dessas senhoras que só sabem comentar a vida alheia, principalmente quando acontece coisa ruim. Certeza que Juan a chamaria de urubu da fala.

            Os parentes nem quiseram saber de nada da terra do falecido Juan. De certo não era momento para isso, pensaram os empregados. Na semana seguinte, deram início a uma limpeza na casa, menos na biblioteca, que estava sempre muito limpa e ordenada.

            Passaram-se os dias, semanas, os homens sem nada fazer, com as chaves em seus bolsos, tiveram a ideia de pôr alguns livros em caixotes e doá-los, já que nenhum parente aparecia. Que pertencessem à escola da cidade, que tinha uma biblioteca menor que aquela, e poderia estar precisando. Quanto aos bichos, pensariam neles depois.

            Passaram um dia encaixotando livros, que não deram nem uma parte considerável da biblioteca, e foram dormir no quarto do velho emprego, já que no outro dia prosseguiriam com a tarefa.

            Acordaram, os dois, com bicadas de uma ave imponente, parecia um falcão. Era certamente um carcará, que pousou no alto do quarto olhando para os dois homens, de cima. Confusos, não sabiam o que fazer, mas ao perceberem as manchas de sangue ao redor, levantaram-se. Foi quando finalmente tiveram a total percepção das coisas, e viram dois coelhos ensangüentados jazidos no chão do quarto.

            Antes de saírem correndo da propriedade, sabiam do que tinham que fazer. Desencaixotaram os livros e os puseram na ordem em que estavam. Fecharam a biblioteca na chave e a jogaram fora.

            Com o passar dos anos desde a morte de Juan – todos que o conheceram há haviam falecido –, as lendas só cresciam em torno de quem ele fora e de sua propriedade, sua casa, seu quintal cheio de animais, sua biblioteca. De tanto se juntarem os falatórios, criou-se uma lenda só, a da biblioteca dos bichos.

            Que o velho Juan rasga-mortalha tinha realmente ficado aqui, entre os vivos, só que no corpo de seus animais, para continuar usufruindo de sua biblioteca, montando nela um ecossistema bizarro. Todo mês surgia um menino que se gabava de ter entrado lá, na biblioteca. Um dizia ter visto um sapo do tamanho de um cachorro pequeno, passando as páginas de um livro, lendo em voz alta, para todos os outros animais ouvirem as histórias.

            Outro dizia, numa versão mais realista, somente que os animais tinham ocupado a biblioteca e que lá havia se criado o maior fedor, com excremento por toda parte. Plantas cresciam, e ele tinha bastante certeza de alguns dos animais destruíam os livros, quando não comiam os papéis. Foi quando vociferou “é demais!” um jovem universitário da cidade que não aguentava mais ouvir histórias acerca da biblioteca dos bichos. E convocou uma assembléia para tanto.

            O palavreado era cheio, mas entre as coisas que disse na assembléia, em sua conclusão, o jovem bradou, “é um caso de saúde pública. Precisamos entrar lá com a polícia para averiguar se não há perigo para a população. Se todas essas histórias forem só lendas, bem, que os livros deste homem falecido há tantos anos sirvam para educação ou o lazer das novas gerações. Só não vejo o porquê de tanto falatório em torno de algo que ninguém nunca viu. Se é coisa que pode ser boa, e se pode ser ruim, é nosso dever eliminá-la.”

            Todos aplaudiram o jovem, mas o pensamento geral na assembleia foi “se és tão corajoso, vais tu!”. E ele captou a mensagem, apenas solicitou um policial com as ferramentas necessárias para o arrombamento. E sabia que precisaria se proteger caso houvesse algum animal feroz habitando aquele lugar.

            No outro dia, no fim da tarde, partiram no carro para fazer a vistoria da biblioteca dos bichos. Era simples, havia a entrada da casa, que era a porta, e a dois metros da porta uma entrada direta para a biblioteca, que ficava na antiga propriedade de Juan Aguirre, num lugar meio isolado da cidade.

            Já no local, o policial abriu a porta com um machado. Um tanto receosos, o policial mais que o moço, deram um passo para a frente, cada um acendeu sua lanterna, o que iluminou uma enorme biblioteca, incrivelmente limpa, com livros maravilhosamente ordenados, por gênero e ordem alfabética. Aquela visão os fez correrem de volta ao carro e acelerar na direção de onde vieram.

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* Extraído de Virando cachorro a grito, 2013, Editora Sarau das Letras.

** Jair Farias nasceu em Natal-RN. É formado em Direito. Virando cachorro a grito é seu primeiro livro, publicado pela editora Sarau das Letras. Contato: jair.farias.oliveira@gmail.com