Ficção inspirada em mito | Fernando Py

Tribuna de Petrópolis, 23/08/13, Lazer, p. 5

 

            Na mitologia grega, a história de Dédalo e seu filho Ícaro nos diz que ambos foram encerrados no Labirinto de Creta pelo rei Minos. Construtor do labirinto, Dédalo fabricou para si e para o filho, dois pares de asas de penas, presas aos ombros com cera, e os dois fugiram dali com facilidade, voando para o céu. Dédalo recomendou ao filho que não voasse muito alto porque o sol derreteria a cera, nem muito baixo, pois a umidade tornaria as penas muito pesadas. Contudo Ícaro, sem resistir ao impulso de se aproximar do céu, subiu demais. A cera fundiu-se, as penas soltaram-se e ele caiu no mar Egeu, episódio narrado nas Metamorfoses do poeta latino Ovídio.

            A escritora pernambucana Patricia Tenório também aproveitou algumas das variantes do mito para elaborar uma ficção, Como se Ícaro falasse (Mossoró, RN, Sarau das Letras, 2012). Em sua ficção, bem criativa e de fundo poético, ela cria personagens próprios: o corvo Graco, a flor Isabel, e a moça Laura, que desde pequena sonhava ser uma “prostituta sagrada” no templo do deus Sol. Assim, depois de apresentá-los, a ação se inicia com uma viagem de Dédalo e Ícaro para Creta. A história segue o mito até o momento em que os dois abandonam o labirinto. A partir daí é quase sempre Ícaro quem narra. Encontra-se com o corvo, conhece a flor Isabel, busca achar “a sua Ariadne”, que lhe surge na figura de Laura, por quem se apaixona. Enquanto isso, o pai exercita os músculos do filho, preparando-o para a grande viagem aérea, e está sempre recomendando que não se aproxime demais do sol. Em certo momento, quando Ícaro já está com as penas grudadas às costas, Dédalo empurra o filho, que voa para o céu. Ao voar, o moço tem a companhia do corvo Graco, seu amigo. Não quer se aproximar do sol, mas o sol o chama, quer fazê-lo rei e lhe dar Laura por esposa. Dédalo, no entanto, percebe que o filho há de morrer, por haver se aproximado excessivamente do sol. Ícaro sabe que vai morrer, não verá mais Laura, perderá o amor com a vida e não conhecerá o filho que gerou nas entranhas da amada. O corvo Graco, que acompanhou a queda de Ícaro, sentiu o valor daquele que foi o primeiro homem a voar, termina o texto: “Houve um homem que se fez pássaro. Não porque o pai o empurrou, não porque nas pedras morreu, mas agora irá falar.” A ficção de Patricia Tenório arrasta o leitor com seu estilo inventivo cheio de poesia. Vale a pena uma leitura minuciosa.

 

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