Revisitando Patricia Tenório* – Setembro, 2013

Nesta edição, revisitamos as quatro línguas de As joaninhas não mentem, em Março de 2011.

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As joaninhas não mentem – Quatro línguas

 

 

19.março - joaninhas 047-1 pequeno

Ensaio de As joaninhas não mentem

Texto: Patricia Tenório

Direção: Jorge Féo

Com:  Ísis Agra, Thiago França, Maria Luísa Sá, Jay Melo, Elilson Duarte e Romero Brito

 

 

Em homenagem ao Dia do Teatro – 27/03/11

 

O Mundo

As joaninhas não mentem, Patricia Tenório 

Editora Calibán, 2006

 

O primeiro passo, o mais difícil. Sempre diziam, e escutou. Assim deveria ser? Até agora acreditava que assim deveria ser. Seguir o que já fora trilhado por outros, caminhos desbravados?

Diferente, agora. Os passos pareciam mais macios, a terra mais fofa. A luz mais luz, o verde mais verde. O verde das árvores cegava, profundamente cegava Ariana. E ela não se perturbando.

Sensação estranha de não se perturbar. Sentimento alheio esse de seguir caminho, independente de onde se chegará. Acostumada em saber se chegaria, o destino outrora traçado, apenas executando ordens de Ama Lúcia. 

(…)

A noite caindo nas mãos de Ariana feito presente. Não sabendo o que fazer com ela. Voltar? E a insistência? Ou enfrentar os fantasmas sobre os quais a Imperatriz falou? Será que a Imperatriz já os enfrentou? Ou era conversa jogada fora, tal vontade que a puxava para trás, um convite delicioso a desistências. Tão mais e mais fácil.

Que deixe o Príncipe Átila. Não dorme há centena de anos? Não estou pronta. Preciso voltar, falar para a Imperatriz, me enganei, tanto e tanto e tanto. O cavalo Branco não parava de embrenhá-los cada vez mais na estrada dos Fantasmas Ocultos, para longe deixavam o caminho do retorno, da segurança, do tempo.

Cruel Tempo. Seu Tempo, não esperas, não sabes esperar? Ainda sou uma menina. Não sou mulher como pensas. Pedes mais do que posso te dar. O vento assobiando no elmo, parecia trazer murmúrios, segredos que o Tempo enviava? Serão do Tempo esses murmúrios? Ou os ouço do meu âmago, meu ser mais que ser? Minha voz ou a dele?

Porque o Tempo é um brincalhão. Travesso feito o Sol ou sábio feito a Lua? A Lua que tanto espera, e roda ao redor de si, e marca datas, quando crescer, diminuir, ou me sentir plena, ou mesmo vazia. Ela sabe do Tempo, controla, levanta marés, dá luz às crianças perdidas, enlouquece viúvos e une casais.

(…)

Il Mondo

Le coccinelle non mentono, Patricia Tenório

Casa Editrice Calibán, 2006

Trad.: Angelo Manitta

 

 

Il primo passo, il più difficile. Parlavano sempre, e lei ascoltava. Avrebbe dovuto essere così? Fino a quel momento credeva che così avrebbe dovuto essere. Doveva seguire ciò che era già stato calcato da altri, strade esplorate?

Le cose ora stavano diversamente. I passi sembravano più delicati, la terra più soffice. La luce più luce, il verde più verde. Il verde degli alberi accecava, accecava profondamente Arianna. E lei non si infastidiva.

Strana sensazione quella di non infastidirsi. Sentimento bizzarro quello di proseguire, indipendentemente da dove sarà giunta. Abituata a sapere che sarebbe arrivata, il destino in precedenza tracciato, eseguiva solo gli ordini di Ama Lucia.

(…)

La notte che cadeva nelle mani di Arianna un fatto presente. Non sapendo cosa fare con essa. Ritornare? E l’insistenza? O affrontare i fantasmi dei quali l’Imperatrice aveva parlato? Sarà che l’Imperatrice già li aveva affrontati? O era conversazione proveniente dall’esterno, come volontà che la  tirava indietro, un invito allettante a desistere. Tanto molto più facile.

Che lasci il Principe Attila. Non dorme da almeno cento anni? Io non sono pronta. Io devo ritornare, parlare all’Imperatrice,  io mi sono sbagliata, molto e molto e molto. Il cavallo Bianco non finiva di farli penetrare ogni volta di più nella strada dei Fantasmi Occulti, lontano lasciavano la strada del ritorno, della sicurezza, del tempo.

Tempo crudele. Il suo Tempo, non aspetti, non sai aspettare? Io sono ancora una ragazza. Non sono donna come pensi. Chiedi più di ciò che posso darti. Il vento fischiando nell’elmo, sembrava produrre mormorii, secreti che il Tempo spediva? Saranno del Tempo questi mormorii? O li sento dentro di me, il mio essere più che essere? La mia voce o quella sua?

Perché il Tempo è un burlone. Irrequieto fatto il Sole o saggia fatta la Luna? La Luna che tanto aspetta, e ruota intorno a sé, e segna date, quando cresce, decresce, o sentirmi piena, o anche vuota. Lei conosce il Tempo, controlla, alza maree, dà luce ai bambini perduti, fa impazzire i vedovi e unisce coppie.

(…)

Le Monde

Le coccinelles ne mentent pas, Patricia Tenório

Maison d´Edition Calibán, 2006

Trad.: Patricia Tenório & Isabelle Macor-Filarska***

 

Le premier pas est le plus difficile. On parlait toujours et elle écoutait. Devait-il en être ainsi? Jusqu’à présent elle croyait qu’il devait en être ainsi. Suivre ce qui avait été tracé par les autres, les chemins défrichés?

C’était différent maintenant. Les pas paraissaient plus doux, la terre plus douillette. La lumière plus lumineuse, le vert plus vert. Le vert des arbres l´aveuglait, il aveuglait profondément Ariana. Mais elle ne se troublait pas.

Sensation bizarre de ne pas se troubler. Sentiment de n´être pas elle-même mais une autre personne, de suivre un chemin, peu importe où il mène. Elle savait depuis toujours qu’elle arriverait, le destin ayant déjà été tracé, elle ne faisait qu’exécuter les ordres de la Servante Lúcia.

(…)

La nuit tombait sur les mains d´Ariana comme un cadeau. Elle ne savait pas ce qu´elle ferait de la nuit. Retourner sur ses pas?  Persister ? Ou bien devrait-elle affronter les fantômes dont l´Impératrice avait parlé ? Serait-ce que l´Impératrice les avait affrontés ? Ou bien avait-elle parlé pour parler, mimant la volonté qui la tirait en arrière telle une délicieuse invitation au désistement. Beaucoup plus facile.

Laissons le Prince Átila. Ne dort-il que depuis une centaine d´années ? Je ne suis pas prête. Je dois m’en retourner, je dois parler avec l´Impératrice, lui dire que je me suis trompée immensément. Le cheval Blanc continuait de pénétrer de plus en plus profond sur la route des Fantômes Cachés, Ariana et le cheval Blanc laissaient loin derrière eux le chemin du retour, de la certitude, du temps.

Cruel, le temps. Monsieur le Temps, tu n´attends pas, ne sais-tu pas attendre? Je suis encore une petite fille. Je ne suis pas une femme comme tu le penses. Tu demandes plus que je ne peux te donner. Le vent sifflait sur le casque, il semblait amener des murmures, des secrets que le Temps envoyait. Venaient-ils du temps, ces murmures? Ou bien les entendais-je au tréfonds de moi-même, de mon être le plus intime ? Etait-ce ma voix ou la sienne?

Car le Temps est malin. Astucieux comme le Soleil ou savant comme la Lune? La Lune qui attend beaucoup, et roule autour d’elle-même, et signale des dates, quand je dois croître, diminuer, ou me sentir pleine, ou même vide. Elle sait le temps, elle le contrôle, elle lève des marées, donne la lumière aux enfants perdus, elle rend fous les veufs et réunit les couples.

(…)

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* Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente se prepara para o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.