Coordenando multidões* | Mara Narciso

20 de junho 2013

Os físicos olham para o céu, embasbacados com a imensidão do universo, e com a descoberta das leis universais colocam tudo em seus devidos eixos, determinando a ordem e a direção da expansão das estrelas e seus anexos. Entendem que há uma fuga lógica, e estes estudiosos descobrem que desde o big-bang nascem e morrem estrelas e ainda, galáxias e buracos negros se deslocam buscando seu destino. Nossa insignificante Terra vai junto. Leis naturais regem o universo, buscando organizar o caos, desde quando “Fez-se a luz”.

Os apaches eram alvos preferenciais dos mocinhos, e ao receberem um tiro de rifle faziam da sua queda espetacular por sobre o cavalo malhado, o grande show do cinema, sob os gritos dos meninos que vibravam com a morte daqueles índios. A incipiente vingança vinha através do galope do bisão. Uma manada de milhares de animais enfurecidos, tocada pelos índios partia em direção do acampamento dos brancos, pisoteando e triturando objetos e pessoas. Os indígenas norte-americanos conheciam a arte de dominar feras em grande número.

            Três leões aproximam-se de um vistoso rebanho de búfalos, escolhem sua vítima, um filhote pequeno e frágil, e têm certeza de que não haverá embate, pois a presa já está vencida. O alvo berra acuado, enquanto a manada foge dos invasores em bloco. Um búfalo, possivelmente o macho dominante, avalia a situação, e com um grito de guerra e numa curva perfeita, faz a família retornar para esmagar os leões, que largam o objeto do desejo e escapam amedrontados.

            Numa metrópole o trânsito de uma via de oito pistas está estrangulado, ou anda lentamente, numa mão de direção, seguindo a vontade de chegar, que deve ser de todos. Boa parte dos que estão trafegando sabe o que quer e para onde vai. Têm um destino, embora não consigam nem chegar perto dele.

Certas doenças psiquiátricas cursam com aceleração de pensamentos, que chegam aos milhares, esgotam o indivíduo fazendo dele um trapo, pois trazem intenso sofrimento psíquico. Infelizes dos que vivem esse caótico momento. Até a loucura precisa se organizar. E há medicamentos para isso. Nada funciona sem uma ordenação.

Os caminhos por onde passam as informações da internet nada mais são do que ruas e avenidas virtuais. Por elas trafegam incontáveis informações, em harmonia. Quando os vírus desorganizam o sistema emitindo ordem para que um único site seja acessado simultaneamente por milhões de computadores, o sistema cai. O caminho se entope e não passa mais nada. O mundo virtual é regido por suas próprias leis.

Na grande Maratona de Nova Iorque, a maior de todas, com seus 48 mil corredores previstos para o ano de 2013, há um ponto de partida e outro de chegada. A direção é uma só, e boa parte dos participantes quer chegar, mesmo aqueles que não podem completar os 142 km e 136 m. Na largada dos que não são de elite, estabelece-se uma ligeira confusão, pode haver quedas, fantasias, palhaçadas, mas há um mesmo objetivo: avançar. Um deles será o vencedor.

Um grupo de jovens, terminadas as aulas, sai da escola, e apenas quer voltar para casa, mas um espírito do mal instiga algum deles a fazer uma malvadeza. É o que basta para que todo o grupo seja impregnado e cometa erros e até barbaridades. Os pais custam a acreditar quando a polícia e as imagens mostram o que aconteceu. Gente em grupo pode tomar atitudes monstruosas.

Podem-se passar décadas estudando o comportamento de grandes agrupamentos humanos, e em se tratando de gente é comum a desobediência das regras quando se está anônimo na multidão. A internet, entrando em todas as frestas faz a chamada. Os grupos se formam. “Ordem e Progresso”. Essa pode ser a intenção. Como Caetano já disse um dia que “a Praça Castro Alves é do povo”, agora o Brasil todo é. “O Brasil é nosso”.

Não se consegue parar grandes números de corpos e de objetos, sejam eles estrelas ou bisões, bytes ou multidões. A população decidiu cobrar a conta toda de uma só vez. A direção possível é do tamanho do sonho de cada um. Nas linhas de frente, batalhas, e nas linhas de retaguarda guerras de ideias e de ideais. Multidões não gostam das lógicas que regem o universo, e o ruim: costumam ser impacientes.

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* Enviado por Mara Narciso: yanmar@terra.com.br