Luto Doce* | Tatiana Morais**

Volúvel

 

Sua devoção é água

Escorregadia e fluida

Às vezes compreensão

Às vezes nada

Muito breve

Renega

Limpa

E se encolhe

E eu

Ilha e terra

Sofro os desentendimentos

Dessa obscura arquitetura

Lançada em um labirinto

Severamente perverso

Rio

Mar

Cachoeira

Lago

Queria perder-me.

 

Destroços

 

Sinto dormências de um corpo sem retoques

Sem manchas reparáveis

Não dobra

Não flexiona

 

Diante de um breve vento

Pedaços e cacos de mim mesma

Não tenho imagem

Só recortes

 

E assim

Soterrada por meus destroços

Tuas preces ainda me tocam

Tua boca ainda me alivia

Os seios murchos

O ventre seco

O couro de velha

O cheiro de tempo

O peito em ti…

 

Impossibilidades

 

Compor o amor no barulho

Alinhar o afeto no som

Tecer os amantes em formas retilíneas

Quando pousar

Fraturar os dedos

Punir os desejos

Em cada recanto do despudor

Não mais restando acalantos

Era para ser suspensão…

 

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* Poemas extraídos de Luto Doce, Tatiana Morais, Sarau das Letras, 2013.

**Tatiana Morais nasceu em Assu, no Rio Grande do Norte. É autora de “Os Círculos do Inverno” (Ed. Sebo Vermelho), publicado em 2009. Este é seu segundo livro, “Luto Doce”, publicado pela Editora Sarau das Letras. Contato: tatiana_morais@ymail.com