Sobre “Um Detalhe em H”*, de Fernando de Mendonça | Patricia Tenório**

 19/06/13

 

Não sei por que demoro tanto a ler certos livros. Talvez por temer um abismo, pressentir uma perda de mim, uma perda do centro, uma desestruturação de meu ser. Isso aconteceu, por exemplo, com O Mar, de John Banville. Lembro de tomar o livro por diversas vezes, trazê-lo para junto de mim, para a mesa de cabeceira, mas algo que eu adivinhava na capa, ou na orelha, ou na pequena resenha do livro me impedia de abrir a primeira página e lê-lo de um fôlego só, horas e horas sem parar, e conseguir escrever no meu diário, ainda tomada pela emoção da leitura, que “uma espécie de vazio se instala em mim”.

O mesmo ocorre com Um Detalhe em H, de Fernando de Mendonça. Este abismo que pressenti em O Mar, de John Banville, em Grandes Sertões: Veredas, de Guimarães Rosa, em O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse e, recentemente, em Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, este abismo se instaura novamente em mim. Meio que o adivinho na árvore da capa dourada do livro de Fernando, nas palavras em forma de árvore da contra capa.

Porque um livro é um objeto por inteiro, com corpo e alma, e uma boa capa traduz esta alma latente que nos chama nas prateleiras das livrarias, nas estantes da biblioteca, na mesa de cabeceira com livros empilhados até quase o teto, eles nos convidam, tentam nos seduzir, e o medo do encontro com o outro eu, tão semelhante a mim que me perderia da essência, faz com que adie e adie essa abertura da leitora a um livro.

Tomo coragem. Abro Um Detalhe em H. Leio a epígrafe de Virgínia Woolf que concorda com o meu temor, de que ali encontrarei “assombrosas significações”. Mas ler é uma atitude de entrega, uma entrega cega como se entrega ao amor, uma entrega sem umbrais, escancarada a cada página, a cada palavra, a cada sentimento cortando a alma pelas palavras de Fernando.

Hugo se apresenta para mim nu, deitado na cama. Sinto a violência e ao mesmo tempo o reconheço em Kafka e Gregor Samsa metamorfoseado em “inseto monstruoso”. Mas ao invés de Hugo-inseto, temos Hugo-espetáculo-de-lagartixa, Hugo-menor-que-lagartixa porque menor-que-um-inseto. Aqui a semelhança serve para o estranhamento. Para sentir-me “alguém com sede”, com sede da leitura, com sede da escrita que a leitura em mim provoca. Para a leitora/escritora as palavras lidas são feito botões de rosas silvestres que se expandem em meu olhar, abrem novas possibilidades, em mim são reverberadas, porque em mim ecoam os “nós” do mesmo querer.

Hugo vai registrando os detalhes que tenta apreender da vida, às vezes mais de perto, às vezes mais distante, feito de posse de uma câmera cinematográfica.  Ele tenta captar o detalhe, mas o detalhe lhe escapa, tal o presente em suas mãos. O detalhe que termina no “horizonte”, um desbravador de tempos ancestrais, quando se pensava a Terra quadrada, e o fim do mundo no fim do que a vista alcança.

Fernando plasma o tempo e o espaço na linguagem, plasma a linguagem à medida que plasma o livro, palavras aparecendo sob nossos pés assim que nossos pés tocam o chão, pois não há chão. Frases adormecidas “à beira do abismo”, à beira do horizonte, entre o acordado e o dormindo, as frases ficam ali, incompletas, esperando pelo vazio, vazio do escuro, vazio da página em branco, vazio da memória que se entrecorta de ausências, ausência de si, ausência de Hugo, ausência de Helena.

Helena completa em Hugo “algo” que “me sente”. Os “H”’s gravados na árvore amiga, cravados na árvore amiga previram o meu despojamento, as vestes retiradas de Hugo, os galhos da árvore, cortados, amputados, extraindo da leitora/escritora todos os excessos, todas as necessidades que lhe pareciam antes necessárias, mas que agora esperam por “aquele detalhe” que as cinco horas de leitura contínua, esfomeada, sedenta aguardaram, e as lágrimas colheram as dores que Fernando despertou em mim, as dores que o “deslumbrante verde” alimentou de esperança, alimentou de alegria por não me sentir mais só, por ver em Hugo, em Helena, em Ricardo, no pai Ademir, e até mesmo em tia Rosa um pedaço de Fernando, um espelho de Fernando, prismas de faces suas que não são ele, porque suas possibilidades, mas são ele, porque verdadeiras, e inteiras, e inteiro Fernando de Mendonça é em sua “nudez desinibida”.

 

Foto Detalhe 1

 

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* Sobre Um Detalhe em H, de Fernando de Mendonça, Recife: Grupo Paés, 2012. Contato: nandodijesus@gmail.com.

** Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente se prepara para o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.