Desfigurações

Patricia Tenório

13/10/2010

            Questiono sobre a traição. A traição em um casal, a traição filial, a traição dos valores, a traição nas palavras.

httpv://www.youtube.com/watch?v=EAAPVLPxN98

Prisão Perpétua([1]) 

“Como criatura de linguagem, o escritor está sempre envolvido na guerra das ficções (dos falares), mas nunca é mais do que um joguete, porque a linguagem que o constitui (a escritura) está sempre fora de lugar (atópica)…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Será uma maneira de escapar de nossas culpas, trair o outro? Agir antes de receber a ação?

“A morte do Pai privará a literatura de muitos de seus prazeres. Se não há mais Pai, de que serve contar histórias? Todo relato não se reduz ao Édipo? Contar é sempre procurar a origem, dizer as disputas com a Lei, entrar na dialética do enternecimento e do ódio?” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Mas vem a Arte e nos envolve nas suas texturas, nos absolve de imensos pecados, quando nela nos jogamos, entregamos. Quando nos reconhecemos.

“O sentimento humano é uma hélice de dois gumes. Uma lâmina alisa a tua vaidade. A outra corta fundo o teu orgulho” (“Reflexões de um liquidificador”, filme de André Klotzel, com Ana Lúcia Torres, Germano Haiut, Aramis Trindade e Selton Melo (voz do liquidificador)).

Mastigo o imenso desejo de justiça, para descobrir que a soberba morre no final dos tempos, morre em mim, morre no meu irmão, morre em toda a Humanidade.

“Si miramos la realidad, las mujeres son más sólidas, más objetivas, más sensatas. Para nosotros, son opacas: las miramos, pero no logramos ir adentro. Estamos tan empapados de una visión masculina que no entendemos. En contrapartida, para las mujeres, nosotros somos transparentes. Lo que me preocupa es que cuando la mujer llega al poder pierde todo aquello. Hay tres sexos: femenino, masculino y el poder. El poder cambia a las personas.” (José Saramago, enviado por Lélia Almeida (http://mujerdepalabras.blogspot.com/) em “Quando é proibido estar descontente” e em www.lanacion.com.ar, 12/07/2007) 

Temo o medo de não ter mais medo. Tornar-me apática e sem sentido. Olhar para trás e não reconhecer quem sou.

 ““Escrevo para não ter medo”? Quem poderia escrever o medo (o que não impediria dizer contá-lo)? O medo não expulsa, não constrange nem realiza a escritura: pela mais imóvel das contradições, os dois coexistem – separados” (O prazer do texto, Roland Barthes).

“La seule de ma vie a été la peur” (Hobbes, epígrafe de O prazer do texto, Roland Barthes).

“… mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.” (A Compadecida em “O auto da Compadecida”, Ariano Suassuna).

Bairro das Laranjeiras – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

 

Pães, peixes

Índios partidos

Na multidão

 

Nem ouse

Não sonhe

Quebrar minha bacia

Parideira de cobras

Ratos

 

Pensar por si

Não é o mesmo

Que pensar

Somente em si

E você caiu

Uma vez

Atrás da outra

Nos seus pecados

Sem saber

Sem arrepender

Quando soube

Pela primeira

Pela segunda

E na terceira

O galo cantou

Anunciando a encruzilhada:

Bem aventurado o simples

Porque será perdoado

Bem aventurado o humilde

Porque em seu coração

Farei reinado

 

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

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(1) “Prisão Perpétua” encerra a trilogia dos curtas adaptados de “Diálogos” de Patricia Tenório. Procurei aqui roçar o limite entre a realidade e a ficção: até onde vai o Real? Com Hermínia Mendes, Renata Phaelante e Juan Guimarães, produção e figurino Jorge Féo, texto, edição e direção Patricia Tenório. No final, os créditos dos 03 curtas de “Diálogos”.