Poemas de Amadeu Baptista*

 

BILLIE HOLIDAY: SOLO

 

Não tenho mais visões, não tenho obsessões,

sigo a trompete, apenas, a ternura

é esse outro lado das coisas em que me perco

porque nada mais me chama e nada mais

revejo no lentíssimo torpor que pelas veias

senti outrora num azul imenso

que mais do que tocar-me me esvaía

no inferno do mundo e em seus ramais

de pura nostalgia, tristeza e desencanto.

Só ergo agora a voz para esquecer

e ter o olhar toldado para as coisas

que como grito lancinante escuto no silêncio

enquanto outras vozes me chamam,

outros indícios me vêm perturbar

quando pressinto a noite antiquíssima

em que se esconde a sobressaltada serenidade

do meu tempo. Nem já a sombra aguardo

ou o sentido destes brilhos espessos,

estas chamas que consomem o meu corpo

e a minha alma no mistério de tudo

e no liminar enigma que adensa nos outros

os sentidos, certa atenção venal, um desespero

que em fumos e rastros me pergunta

por esta vida que já não é minha

e no coração recebo como salvação e ruína.

Sigo a trompete, o subtil sinal da despedida.

Só ergo agora a voz para esquecer.

 

 

A NOITE DE PAVESE

 

Raras vezes me franquearam a porta

e me deixaram entrar. A febre

sitia-me a alma e quem me vê

assusta-se do aspecto do meu rosto,

esta barba por fazer onde um rouxinol

se esconde. E mais ainda assusta

a minha altura, este lugar de vertigem

e palavras poderosas, a presença

de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,

o estremecimento que corre nos meus ombros.

Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.

E quando entro nas casas os meus gestos

afeiçoam-se a alguma coisa enigmática

que contorna o pavor e o entrega

por não se saber que espécie de vida ou de morte

vem comigo. Obviamente, eu abençoo

quem me deixa entrar, dou a entender

que alguma coisa brilha nas minhas mãos

e posso matar a fome com uma ou outra palavra

próxima do amor, um dedo nos cabelos

de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa

em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem

com as inefáveis sombras que vejo nos outros

e tento decifrar para meu contentamento.

Mandaram-me sentar e deram-me de beber.

Esse álcool reconfortou-me a alma.

E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo

e nítido, observando a mulher nesse sem fim

das coisas, onde todos os mistérios avançam

para uma explicação que a qualquer momento

pode irromper do espírito como uma explosão.

Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas

que me ofereces, o teu rosto é-me familiar

se recuar à infância e subitamente perceber

que também pertenci ao exercício desta árvore

que nesta sala se levanta. Em frente,

na fotografia que o meu olhar alcança

porque me alcança o olhar que dela se desprende,

inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar,

mais que um rumor ou um fio ténue

com o nome de todas as coisas inesperadas

que me aconteceram na vida, sempre

que me franquearam a porta e me deixaram entrar.

Agora, com a memória de ter estado em tua casa

e ter recebido a graça de alguma atenção,

eu, que sou pedinte embora nada peça,

entrego-te este sulco da desordem

sobre a página em branco e agradeço-te

com o conhecimento de um outro mundo

ainda mais inexplicável.

Não tendo havido despedida, sabe que permaneço

e na encruzilhada das dores que me couberam viver

não esquecerei o teu nome no dia em que também tiver partido

e mais nenhuma luz houver além daquela

que ilumina o teu rosto na solidão da noite.

Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar.

Que me seja a alba a tua tolerância.

 

 

INTERVALO PARA LEONARD COHEN

 

E o mistério? Ainda transfiguramos

o mistério no rastro inacessível da verdade,

ainda trocamos o crepúsculo por outra linha fugaz

no horizonte ígneo? A sombra fugitiva

que habita o nosso corpo, a alma,

a insegura alma de existirmos?

 

Nascem e morrem, as cidades,

sucedem-se os dias, as estações, os anos,

esfuma-se o tempo, foge entre os dedos a vida

que nos religa à fuga uma outra vez ainda,

a solidão ameaça, procura-nos a morte

com o medo de querermos instintivamente resistir,

a verdade efémera, o amor.

 

Outro cigarro?

 

Outro mistério, ainda,

na auréola de fumo sobre as cabeças

–  e o mistério, a que devastação conclama?

 

O destino das coisas, o mundo de instantes

à deriva?   

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Amadeu Baptista nasceu no Porto, a 6 de Maio de 1953. Publicou até à data mais de três dezenas de livros de poesia, o último dos quais foi ‘Atlas das Circunstâncias’, em 2012. Recebeu vários prémios literários, entre os quais destaca o Prémio Teixeira de Pascoaes, em 2004, pelo livro ‘Paixão’ e o Prémio Espiral Maior, atribuído em Espanha ao seu livro ‘Açougue’, publicado em Portugal em 2012. Tem colaboração dispersa em jornais, revistas, livros colectivos e antologias nos seguintes países: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, E.U.A. Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Luxemburgo, México, Portugal, Roménia e Uruguai. Alguns dos seus poemas foram traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.