Poemas* de Orley Almeida

 

(clave: caderno de poesia)

 

Poema 4

 

Sinto estar só;

Mas, se alguém

Ao lado houvesse,

Também seria

O que se esquece

 

(o vocábulo das horas)

 

Bem sabe o dia

O vocábulo das horas

– Lápide de esquecimento –

A construir imutável

 

O nosso engano.

 

Segundo poema sonâmbulo

 

O verde que meus olhos apascenta

Agrava os funerais dessa demora.

Retinem pétalas.

O ar é louco

Em sua flora.

 

(orley)

 

O mito

 

Esta visão de ti

Que o dia aceita,

À noite, em meu olhar,

Mal se sustenta.

 

Fica um resto de dor

Por sobre a mesa

Onde a sombra do mito

Se alimenta.

 

O vinho que se junta

Ao lume da fadiga

Nem sequer embriaga.

Mas deixa nesta mesa

Um tom em névoa

Que, disperso, se apaga.

 

(poemas em preto e branco)

 

A sala

 

Tua ausência abriu três feridas na minha sala.

Na minha sala de estar.

Na minha sala de nunca estar.

Na minha sala de ter janelas para o mar,

Para amar.

 

Convite

 

Aqui não há lugar.

Deleitemo-nos sob a ponte.

Se a noite faz o dia,

Façamos o instante.

 

(o exercício da solidão)

 

Poema

 

Carlinho é meu domingo:

Sol, azul e maresia.

Carlinhos são quinze anos

De breve melancolia.

 

Poema

 

Todas essas coisas são abismos:

O mar azul, a nuvem branca

E o coração cativo.

 

Poema

 

Indigna solidão;

Retraço do que não sou.

A vida pede amigos

E amor.

 

É preciso tempo…

 

É preciso tempo para roer as unhas

E vê-las sangrar como dez rosas

Em nervosas hastes.

 

É preciso tempo para juntar as palavras

E fundi-las, sozinho,

Na frágua do poema.

 

É preciso tempo para, olhando o teu corpo,

Possuí-lo em forma e circunstância;

E, aprisionado, feri-lo no vórtice profundo

Das mudanças perenes.

 

(Poemas inéditos e dispersos)

 

Os olhos são o de menos

Para Ângelo Monteiro

 

Escrevo não o que vejo,

Mas o que abstraio.

Os olhos são o de menos.

E à margem do real

Cumpre-se o poema.

 

Aos desavisados,

A matéria nutrícia dos pastos.

 

Sabem a minha fome:

               o ladrar das sobras

               a luminosa insensatez dos astros

               e os giros multívagos da palavra ancestral.

 

Os olhos são o de menos.

 

 

Poema da morte impressentida II

 

In memoriam de Getúlio Bezerra da Silva, assassinado aos dezessete anos, em 15 de Agosto de 1997.

 

Cantarei a vida

E o desencontro.

O nunca dar

O amor que há

 

Sempre ver

O invisível espanto

De não mais sofrer.

 

Uma estrela sem fim,

Um céu empobrecido,

A sanha de matar

O anjo e o menino.

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* Extraídos de Prosa e Poesia – Orley Almeida. Organização, prefácio e notas Anco Márcio Tenório Vieira. Recife: Cepe, 2012.