Os dias perambulados & outros tortos girassóis* | Antonio Ailton dos Santos**

 

Fumês ao crepúsculo

 

Reinventar a vida é redimi-la de toda a sua crueza

Não de suas mediações

É preciso desculpá-la em seu teatro cósmico

E reconhecer que nós continuamos

a ser tão ranzinzas, tão mesquinhos

 

William Carlos Williams deveria estar vivo

Para ver este crepúsculo

 

Diante do mar

Nós tiraríamos calmamente os nossos óculos

 .

 

Weekend

 

alguém deveria

ter ido

pôr os ratos para fora

alguém

deveria

ter ido

lavar a casa suja que ficou dentro dos pratos

todos

os meus sibuís que freqüentam

a lavanderia

 

o sol que entra quadrado

pelos blocos retangulares de uma quitinete alugada

é domingo

qual fosse um mar inútil

meu corpo se repete na areia

às vezes na clara vegetação

(ou no que incendeia e reverbera lá fora)

 

o teto escora muitas perguntas

mas já sabe há muito tempo que todas as respostas

são pretensiosas

ou estupidamente

vãs

 

A reclusa

 

todos os dias, a reclusa olhava pela fresta da janela

e, tecendo o seu tricô,

não se importava se os poetas cantam para dentro

ou para fora

. 

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* Poemas extraídos de  Os dias perambulados & outros tortos girassóis, Prêmios Literários Cidade do Recife 2008. 

** Antonio Ailton dos Santos é do São Luís do Maranhão e mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE. Contato: ailtonpoiesis@gmail.com