Transmutações

Patricia Tenório

11/10/2010

        Há umas três semanas li uma crítica em um jornal do Recife sobre o filme “Comer, Rezar e Amar”, de Ryan Murphy, baseado no livro de Elizabeth Gilbert, com Julia Roberts e Javier Bardem.

        Além desse texto sobre o filme ouvi comentários de que seria longo, monótono, que o livro era melhor, que tratava de uma mulher que fugia de estar acompanhada e ao mesmo tempo era exatamente o que mais queria: estar acompanhada.

        Uma vez fui com meu filho Bruno ao cinema para assistir “Um dia depois de amanhã”. Eu havia lido uma crítica negativa de um jornalista a quem admiro muito. Comentei isto com Bruno. No auge dos seus 10 anos, ele me colocou o que muitas pessoas da minha idade nunca haviam pensado:

– Mãe, quero saber o que eu penso, não o que o jornalista pensa.

        Não, eu não li o livro de Elizabeth Gilbert.

        Somente depois de assistir o filme, pesquisei um pouco mais sobre a autora deste best-seller. Mas por que o trago aqui neste espaço de reflexão minha, onde tento costurar o que estudo, o que enxergo, o que sinto sobre a vida, os acontecimentos, sobre as pessoas?

        “E é bem isto o intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito – quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou a tela de televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

        Talvez porque o filme me tocou ao ponto de me fazer chorar? Ora, Patricia, você chorou mesmo na octogésima vez que assistiu O Rei Leão… Será pelas palavras, que para alguns podem ser chamadas “de efeito”?

        “Caríssimo, lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho. Por ele eu estou sofrendo até as algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada. Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, com a glória eterna.” (São Paulo em 2 Timóteo 2, 8-13)

        Ou por querer exatamente colocar assuntos aparentemente díspares (a princípio), mas que naquela curva, naquela conexão me acendeu uma centelha?

        “A oposição (o gume do valor) não ocorre forçosamente entre contrários consagrados, nomeados (o materialismo e o idealismo, o reformismo e a revolução etc.); mas ocorre sempre e em toda parte entre a exceção e a regra. A regra é o abuso, a exceção é a fruição”(O prazer do texto, Roland Barthes).

        É possível um outro olhar, uma nova estrada: o que acalma a minha sede de…

“… apostas

Às respostas que por ti fiz um dia”

(A mulher pela metade, Patricia Tenório).

           Mas por certo, algumas “apostas”, assistindo ao filme, rondaram as “respostas” da crítica do jornal do Recife: não, Liz Gilbert não passa o filme inteiro procurando fugir de estar acompanhada; sim, ela está fugindo de si mesma. Não, não devemos viver a vida pelos outros; sim, o artista só pode viver a vida nos outros.

        “O escritor é alguém que brinca com o corpo da mãe (a língua materna) (remeto a Pleynet, sobre Lautréamont e sobre Matisse): para o glorificar, para o embelezar, ou para o despedaçar, para o levar ao limite daquilo que, do corpo, pode ser reconhecido: eu iria a ponto de desfrutar de uma desfiguração da língua, e a opinião pública soltaria grandes gritos, pois ela não quer que se “desfigure a natureza.”” (O prazer do texto, Roland Barthes)

        “Pois bem, que assim seja! Que minha guerra contra o homem se eternize, já que cada um de nós reconhece no outro sua própria degradação… já que somos ambos inimigos mortais. Quer deva eu conseguir uma vitória desastrosa ou sucumbir, o combate será belo; eu sozinho contra a humanidade.” (Lautréamont, Os cantos de Maldoror)

        O que não quero ser nomeado, roça nossa pele, arrepia pêlos, arranca lágrimas do mais duro dos corações. Até mesmo daqueles que não aceitam que somos feitos de matéria bruta, que podemos e vamos Cair, Levantar e Tentar…

        “Ninguém jamais vai conseguir provar que Deus existe ou que não existe. Existem certas coisas na vida que foram feitas para serem experimentadas – jamais explicadas. (…) O amor é uma destas coisas. Deus – que é amor – é outra. A fé é uma experiência infantil – naquele sentido mágico que Jesus nos ensinou: é das crianças o Reino dos Céus” (Paulo Coelho, “Explicando Deus”, Diário de Pernambuco, Viver, 11 de Outubro de 2010).

        “Mal aplicada, a virtude transforma-se em vício, e o vício, pela ação, pode por vezes ser dignificado”. (“Romeu e Julieta”, William Shakespeare)

The Long and Winding Road, The Beatles

Anne waitin´ Shakespeare([1]) 

Patricia Tenório

13/01/10

 

To be or not t´ be in love

To share or not t´ share a heart

May be a way t´ not live a life

Could be a path t´ stop rhythm of time                        

And in a lon´ long winding day

I´ll find what I´ve always been looking for

In verses an´ rhymes

Snow, faith an´ hope.

Anne esperando Shakespeare([2]) 

Patricia Tenório

13/01/10

 

Ser ou não ser apaixonado

Partilhar ou não um coração

Pode ser uma maneira de não viver a vida

Pode ser o caminho de parar o ritmo do tempo

E num longo, longo dia de ventania

Acharei o que sempre estive procurando    

Em versos e rimas  

Neve, fé e esperança.

(1) Diante do Anne Hathaway´s Cottage, casa de Anne Hathaway, primeira esposa de Shakespeare, em Stratford-upon-Avon, Inglaterra.

(2) Tradução livre de Patricia Tenório.