Revisitando Patricia Tenório* – Fevereiro 2013

 

Na edição deste mês, em homenagem à Semana de Arte Moderna que aconteceu há 91 anos, de 11 a 18 de Fevereiro de 1922, revisito dois posts que tratam de artistas (Victor Brecheret e Vicente do Rego Monteiro) do Movimento Modernista, que também será abordado no Convite de Bernadete Bruto e Jair Martins para o bate-papo do qual farei parte sobre Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade.

 

Conversações I: Com Victor Brecheret**:

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(Junho 2011)

 

Mãe Índia, Victor Brecheret

 

“Além da terra cota, Brecheret utilizou-se de pedras. Pedras que vieram do mar. Um tesouro que as ondas não quiseram mais e depois de descobertas nas areias da praia, foram levadas para o atelier: pedras que durante séculos viveram sob o dorso verde do oceano. Esculpindo-as, Brecheret deu-lhes uma história. Marcou ali, em traçados rústicos, a figura de uma índia, de um peixe. E suas pedras criaram vida.” (Victor Brecheret Filho)

 

 

Bartira, Victor Brecheret

 

bARtira

Patricia Tenório

10/06/11

dez anos casados

dez anos separados

e os anos vão

desanuviando espaços

cavando buracos

cravando feridas

onde não mais passo

crateras da vida

estão lá

tontas

feito meu pensamento

ocas

feito um coração partido

sérias

de considerações

e a partir de mim

a partir de ti

partir no navio

mais longínquo

mais agudo

mais aguado

de sal e mar

de sol e terra

de ar

e Ar

e AR

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Quatro pequenos contos*** – Patricia Tenório

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(Agosto 2011)

 

\ XII /

            Dez para as doze ou doze e dez? Rezo com o sol a pino ou espero o entardecer?

            Do outro lado, sob o quadro O Lobo e a Ovelha, de Vicente do Rego Monteiro, encontra-se ele, unhas grandes, a barba extensa, lobo que atravessará a mesa do café para me engolir? Bem que minha mãe falou às escondidas para eu não falar às claras com estranhos, porque quando falo mostro o branco dos dentes, lábios tremem, os olhos piscam.

            Não quero acordar daqui a mil anos numa praia deserta, o corpo enrugado de ondas e grãos de areia. Pudera esquecer que um dia ele se disse inteiro e eu percebi, lá no fim do túnel, um diamante bruto, usei das frases e coragem para ir limando, limando. Às vezes ele me escrevia versos, oferecia flores, apontava estrelas – me prometia algumas, iria buscar com Adão e Eva, ou nos braços da Deusa-Mãe de todos os homens.

            Quem dera eu ainda acreditasse em contos de Natal, ele desenhasse meu rosto com a ponta dos dedos e me fizesse mulher numa tarde de sábado; viria a noite, a madrugada, detentora das angústias, pesadelos, ele não estaria lá, sob o quadro O Lobo e a Ovelha, de Vicente do Rego Monteiro, do outro lado da mesa do café, unhas grandes, a barba extensa, lançando em meus olhos raios e trovões, jogando por sobre a rede de sentimentos uma história construída a quatro mãos, seis estrelas, dez para as doze ou doze e dez.

 

Déjà-vu

            Parece mentira o que vou lhe contar. Uma verdade captada por uma pessoa distraída feito eu?

            Dizem que a amiga de uma amiga minha – será Rita o nome dela? – conheceu em Paris Vicente do Rego Monteiro. E tem mais: casaram-se às escondidas, apenas ele, ela e o padre de testemunhas na Eglise St-Julien-le-Pouvre, uma das mais antigas da cidade. É bem pequena, feita de madeira no estilo barroco, quase vejo anjos querubins abençoando os noivos, sonhadores, com uma vida toda pela frente para que ele a tatuasse inteira, uma flor de lis no pulso e…

            Tatuasse? Pelo que ouvi falar, Vicente foi pintor, poeta, escultor, tipógrafo, editor, mas tatuador? Não sei se um riscava no outro provas de amor eterno, como se amar provasse alguma coisa. Amar não se prova, se sente. E o amor não é sentimento, é uma atitude. E atitudes não se dizem, se fazem. E por que estou escrevendo tudo isso para alguém que não conheço, que talvez nem saiba dessa história de Maria Rita e Vicente, que tatuava a esposa em Paris, e de repente morreu um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos.

            Será que era isso mesmo o que eu queria dizer?

 

Musselina

            Escrevo no escuro palavras germinais. Elas preenchem a folha em branco, fluindo de um lado ao outro até desembocar na cachoeira do mais profundo eu.

            Escolho versos soltos, eles pintam céus, Adoração dos Magos, ave-marias, e a Santa Mãe me acolhe nos braços virgens, não me sinto só.

            A cada letra desenhada entendo um pouco mais, pois preciso encontrar sentido para continuar caminho. Depois do sentido, aceitação, depois a morte, e um outro alvorecer.

               Deslizo da tela para o caderno na esperança de me fazer são, lúcido, prestes a descobrir um novo signo envolto na musselina rubro-azul do manto de Maria.

            Naquela estrada, uma montanha, verei A Assunção da Virgem do texto à última pincelada, onde encontrará o Filho amado, Reino dos Céus, e uma coroa de espinhos de quem escreve no escuro palavras germinais.

 

Óculos

Para Thomaz Lôbo

            Ele acendeu o Jardin du Luxembourg na memória.

            Às vezes lembrava o que não havia acontecido com uma certeza que transparecia cores, aromas, frioquente.

            Um canteiro de papoulas róseas deitadas sobre a grama fresca. Ali cavava o solo escuro até encontrar uma fresta para o outro lado do mundo.

            Quando queria o ocre buscava no deserto do Saara, piscava areia, piscava oásis, e a cor de telha explodia no olho. Ficou parado por um tempo de recomeço, e saiu do lugar porque um vaga-lume enverdeceu a mão esquerda, aquela que tomou a tela e pincel para manifestar o arco-íris.

            Não havia prece ao partir o pão, e os trabalhadores esfomeados surgiam de todos os cantos, trazendo os músculos salientes, a força emanava dos pulmões arquejantes, em arco poliam os céus com flechas de fogo e por centelhas de instantes procuravam a paz no coração dos homens de boa vontade.

 

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Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

** Victor Brecheret (Farnese, Província de Viterbo, na Itália, 22 de fevereiro de 1894 — São Paulo, 17 de dezembro de 1955) foi um escultor ítalo-brasileiro, considerado um dos mais importantes do país. É dele a famosa escultura “Monumento às bandeiras” que fica em frente ao Palácio Nove de Julho em São Paulo.

*** Textos extraídos e participantes do livro Quatro faces de um encontro – Vicente do Rego Monteiro, 2008, Editora Calibán.

**** Rita, A Assunção da Virgem e Mesa com vaso de orquídea – Telas de Vicente do Rego Monteiro.