Rosa do Deserto* | Rizolete Fernandes**

           Em visita a um amigo que cultiva plantas e flores em sua bela moradia à margem da Lagoa de Alcaçus, recebi de presente a muda de uma planta chamada Rosa do Deserto, de caule cinza esverdeado, desnudo e com folhas verdíssimas na extremidade superior. Ela é assim chamada por dispensar a rega diária e necessitar de muito sol para seu desenvolvimento.

            Meu apartamento não dispõe de sacadas nas janelas e a área contígua à cozinha é toda coberta. Assim, a solução para manter a planta viva foi um banquinho alto que coloquei próximo à janela, onde recebe a luz solar da primeira parte da manhã. Passou-se quase um ano para que fizesse sua primeira floração. Vi surgir o botão e acompanhei passo a passo sua evolução, até o dia em que explodiu numa flor. Por pouco não assisti a esse momento mágico: abri a janela para seu banho de sol e fui cuidar dos afazeres. Pouco depois, ao retornar à sala, encontrei, altaneira, a linda flor. Fiquei tão comovida que corri ao telefone, para anunciar o nascimento ao doador!

            A minha Adenium obesum (seu nome científico) é uma Bua Khao, que indica a cor branca da flor. Mas as flores desta planta podem apresentar cores com gradações que vão do branco ao vinho.

            Depois do advento, achei que iria ter flores na sala com frequência. Ledo engano. O amigo estranhou a demora e veio prestar “assessoria”, dando um trato na planta, que mudou para um jarro maior, com adubo orgânico e novas dicas de cuidado. Disse que, normalmente, ela flora a intervalos menores, atribuindo a demora à pouca incidência do calor solar, ou à meia-sombra, no jargão botânico. O que fazer, senão ter paciência?

            Qual não foi, pois, minha alegria quando, agora, decorrido quase outro ano, surgiram três botões, simultaneamente, num dos dois galhos da pequena planta. A partir daí, e, como da vez anterior, ao levantar pela manhã, corria a abrir a janela, na expectativa do espetáculo ímpar que é a chegada de uma flor. Que demorava, a meu ver, além da conta.

            Coincidindo com o nascimento dos botões, recebi do Partido Comunista do Brasil o convite para receber uma homenagem a ser feita pelo partido a algumas pessoas que se destacaram nas lutas pela redemocratização do país, no período ditatorial. No dia da solenidade, antes de sair de casa, fui conferir os botões, um deles prestes a mostrar sua beleza em plenitude.

            Regressei por volta das 14 horas e ao abrir a porta, meus olhos pousaram direto na planta e lá estava uma das flores! Alvíssima, em suas cinco pétalas e igual número de estiletes e um pouco menor que a antecessora, mas linda. Ainda que anunciada, sua chegada sempre me emociona. Um regozijo.

            Dos dois outros botões, um murchou e não vai dar em nada. O outro continua se desenvolvendo e logo vai me ofertar mais um presente.

            Depois do ato solene em que fui homenageada e do abraço afetuoso de diversos amigos, alguns dos quais não via há tempos, só pude considerar o momento perfeito: tinha nas mãos uma comenda e na sala uma flor, para enfeitar a vida. Do que mais eu precisava naquele dia para ser feliz?

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* Texto extraído de Cotidianas, de Rizolete Fernandes, Editora Sarau das Letras, RN, 2012.

* Rizolete Fernandes, socióloga, norte-rio-grandense de Caraúbas, reside em NAtal. Na luta por um mundo melhor, integrou-se aos movimentos sociais; nos dias atuais, combate com a palavra escrita. Publicou A história oficial omite, eu conto – Mulheres em luta no RN (Edufrn, 2004); Luas Nuas (Una, 2006), poesia; e Canções de Abril (Una, 2010), poesia. Cotidianas marca a sua estreia na arte da crônica.  Contato: mrizolete@yahoo.com.br

*** Adenium obesum ou Rosa do Deserto.