Um conto e um poema – Patricia Tenório*

 

Maria-Maria

 

Era uma antiga pedreira o lugar onde Maria resolveu levar Joana para fazer uma trilha. O voo dos passarinhos não se ouvia lá, porque as folhas secas das árvores se quebravam, se partiam, os ouvidos atentos às folhas, atentos ao próprio coração.

Maria começou a namorar Joana fazia pouco tempo. E fazia pouco tempo o bombeiro ensinou os primeiros socorros para as duas e aos três rapazes tão parecidos entre si que seriam trigêmeos não fossem de cores diferentes. E a um casal recém-casado, recém-constituído-um-lar, que não parava de trocar beijos e abraços, o que chamou a atenção de Joana.

– Eles não têm muito tempo.

Elas não tinham muito tempo. Mas pareciam séculos. E todos os dias Joana ligava quando saía da aula para marcar com Maria na lanchonete da escola. Não podiam se beijar, se abraçar, trocar carícias. Mas olhavam uma para outra como para se teletransportar, e avistar bem ao longe e cada vez mais perto a piscina azulada criada pela pedreira.

– Um veio d’água aqui brotou.

Disse o bombeiro. Bem simpático. Musculoso. Ensinou para Maria as primeiras instruções.

– Para o rapel é preciso soltar a alma, soltar o grito guardado no estômago.

Do estômago ele vinha, o grito. Maria o engolia, Maria o afastava da garganta, feito o medo afasta o pensamento e parecemos não pensar, parecemos ser feitos de pedra, e a pedra não tem humanidade. Ou será a pedra gente que se impõe pelo caminho? Bloqueia no caminho o pensamento de ir e vir. E estáticos, parados, ficaram Maria e o pensamento, aguardando o bombeiro, simpático, musculoso, soltar a corda, correr o trilho, para o corpo se jogar, o corpo se abandonar na profunda piscina azulada lá embaixo.

– Pula, Maria, pula!

Parecia Maria ouvir. Mas não ouvia nada, não sentia nada, nem o bater do coração. Uma carapaça de (medo?) suor cobria toda a pele, e os poros tão dilatados que se podiam ver as veias e o sangue grosso, viscoso, por elas a se arrastar.

Maria se lembrava do dia em que a mãe morreu. Ela não viu a mãe morta, enterrada, no caixão. O pai não deixou. Desde então imaginava cenas, criava histórias tão reais quanto estar ali, naquele abismo, prestes a se atirar.

Por que o medo de se atirar? O que iria perder além de uma vida? Uma vida pode se perder, uma vida pode se viver uma infinidade de vezes, uma imensidão de tipos e máscaras de possibilidades de si: Maria-Maria, Maria-Joana, Maria-sua-mãe, Maria-seu-pai, até Maria-bombeiro-simpático-musculoso.

– Vai, Maria, vai!

E Maria caiu. Era uma queda lenta. Em câmara lenta. Como se a alma de Maria abandonasse o corpo e visse o próprio corpo assustado, congelado, paralisado, caindo, sumindo, consumindo a si na queda, na entrega, no abandono de um abraço que Maria queria dar em sua mãe. 

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Quarto sentido

01/12/12

  

Aqui estamos

De novo

Teus olhos pousados nos meus

Tuas mãos a exprimir

Palavras

Da boca para dentro

Do tempo para fora

 

E eu

Os sonhos engavetados

Até amanhã?

Até nunca mais?

 

Não sei

Não sei

Só sei que meus olhos

Estão secos demais

Estão velhos demais

Da vida

Não vivida

Não sentida

Não amada

 

Que os olhos teus apontam

Que as mãos tuas molham

No beijo

Dos lábios teus

 

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Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

** Foto de Patricia Galindo. Contato: pattioxe@hotmail.com