Tu me lapidas* | Antônio Alvino da Silva Filho**

 

A sociedade é, em todos os lugares,

uma conspiração contra a personalidade de seus componentes.

(Ralph Waldo Emerson)

 

            Rendo-me às evidências e aos teus argumentos. Durante milhares de anos travamos uma luta árdua e contínua; mas agora entendo claramente o quanto tens razão, e o quanto inutilmente contestei tuas normas e mandamentos. Sou réu, confesso: fui um eterno rebelde, individualista, ingrato também. Resigno-me neste instante.

            A primeira lembrança que tenho de ti remonta ao meu tempo de barriga. Naquele lugar morno, de penumbra, aconchegante, podia sentir já tuas emanações: ruídos, luminosidades, vibrações, emissões alfa, beta, gama e outras do abecedário. Desde ali, estranhei estes teus estremecimentos, já que meus antepassados não me deram conta da tamanha agitação do porvir. Mas compreendo que o progresso impõe a adaptação desde a concepção, e que a natureza ainda não conseguiu – ou não teve tempo de – incorporar o progresso à eternidade.

            Eis que chega a hora de nascer. Como todo ancestral, esperava sair do ventre pela via natural; mas novamente percebo o meu erro, ou antes, a minha ignorância. Raros são os partos naturais. Que vergonha a minha. Partos naturais estão fora de moda, demoram, tomam o escasso tempo dos médicos, diminuem a remuneração destes e dos hospitais, provocam filas e dão escândalos e ainda abalam a estética das mães.

            Alcanço um ano de vida solar. Pasmo ante a grandeza do mundo e o quanto tenho a explorá-lo. Não é à toa que a natureza dotou-me de mãos ágeis e polegares opositores, de curiosidade sem tamanho, de inquietação – de liberdade de movimentos, enfim. Todavia, o aprendiz de mundo moderno desconhecia o preço e o risco da diversidade à frente: o vaso da mamãe; a eletricidade – ainda que perigosas, são tantas tomadas espalhadas pela casa! A pintura das paredes e do carro do papai; os óculos do vovô; os bancos do carro; os copos, pratos, livros, jornais e muitas outras coisas que me cercam e que, no entanto, me são proibidas.

            Não sabia – juro – que estes objetos fossem tão cultuados e intocáveis. Mas tu, porque sábia, me forneceste uma compensação. Já que nesses objetos não posso pegar, me ofertas réplicas coloridas, variadas e perfeitas: brinquedos de plástico os mais diversos abarrotam meu quarto. Com tua perene bondade, me encorajas para que os toque, aperte, morda. Criaste um mundo artificial e em miniatura para mim, substituto do proibido mundo real.

            Chego aos dez anos. Sinto-me plenamente adaptado ao mundo. Teus ensinamentos e restrições mostraram-se eficazes. Lembro como se fosse hoje o brilho dos teus olhos diante da minha serenidade, da minha atitude de menino bem-comportado. Não te fiz passar vexame algum perante amigos e parentes, ainda que em festas de aniversário. Fui plenamente previsível.

            Quando penso que estou integralmente adaptado, vejo que nova fase me empurra para a rebeldia. É chegada a adolescência. A natureza me invade de hormônios, verdadeiras drogas internas a me darem ordens: afronta teus pais, procura o sexo, joga fora o fardamento adquirido pela tua mãe e usa roupas que demonstrem atitudes; sai de casa; busca tua liberdade. Só agora, adulto, percebo o quanto fiz meus pais sofrerem.

            Hoje, sou-te grato pelos conselhos, imposições, regras, punições. Sou pessoa civilizada, inteiramente adaptada ao meio. Por me ter ajustado com perfeição, mas recebo de ti todas as atenções e recompensas. Não mais luto contra ti; em contrapartida, tu me proteges. Aclimatei-me; em compensação, não demonstras tua fúria – és apenas mansidão.

            Não fosse tua atuação sobre mim, eu seria hoje mal educado, violento, resfriado; usaria cabelo comprido, vestiria esquisito; não seria médico ou engenheiro, pessoa cristã e civilizada. Sim, porque afinal me sinto como produto cultural. De herança, somente meu aspecto físico.

            Apesar de me render a ti, algo me intriga: se não nascemos homens e sim nos tornamos homens, por que tu não intercedes perante a natureza de modo a nos fazer nascer já adaptados? Dito de outra forma, por que, aos teus olhos, nascemos bárbaros, oh sociedade modeladora?

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* Antônio Alvino da Silva Filho – brasileiro, nascido e criado no Nordeste, casado, quatro filhos. Tem profissão definida e se encontra preso às teias do mercado. Há tempos empenha o melhor de suas forças na tentativa de escapar da multidão. Ainda não logrou êxito. Contato: alvino62@gmail.com

** Texto extraído de Contrapontos: reflexões a partir da vida em rebanho. Antônio Alvino da Silva Filho. Crônicas. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2012, pp. 25-27.