Sinais* | Clauder Arcanjo

 

“O arrepio é o código do mistério que nos rodeia.”

(Paulo Bomfim, em O Colecionador de Minutos)

 

O primeiro, sob a copa do tamarineiro do Mercado Público, foi descoberto — melhor, percebido — na madrugada da segunda-feira. Após a grande feira do domingo, o primeiro das festas da Padroeira Senhora Sant’Anna.

— Estranho. Muito estranho. — foram as palavras do Mestre Galdino Epaminondas, sempre chamado a desvendar as estranhezas da província. Ele, estudioso de francês e latim, com os óculos de fundo de garrafa, a colocar o nariz nas letrinhas as mais pequenas, nos rodapés dos grandes tomos, nas coisas nunca lidas, nem muito menos entendidas. “Em busca dos mistérios da vida, minha gente!” — anunciava, quando lhe assacavam a pecha de maluco.

— Estranho. Muito estranho. Seria um sinal da Santa? — será preciso melhor acompanhar.

Dispôs um cerco em torno do acontecido. Pequenos círculos concêntricos, na tentativa de preservar o objeto para a análise posterior.

— Estranho. Muito estranho.

O bêbado Zarolho, numa ressaca dos diabos, e incomodado com o movimento na sombra do seu tamarineiro predileto, praguejava, altissonante.

— Estranho nada!… Isto deve ser serviço das benzedeiras do Alto da Liberdade, meu povo. Como ontem estava havendo festa lá no Alto, resolveram chamar os santos logo aqui no Mercado. Entenderam?

Logo Cabo Dandora quis afastar todo mundo, com receio de altercações.

— Vão todos para casa! Deixem a questão com as autoridades constituídas. — rodava o cassetete de juá, e fungava as calças de brim marrom, já marcadas pelo saco herniado.

O prefeito quis decretar estado de calamidade pública. Mais de olho no superfaturamento dos procedimentos do que mesmo no desvendamento do misterioso sinal.

Na noite da segunda-feira, o aviso segundo. Desta feita, na calçada de Dona Candinha do Matapasto. Mulher do sacristão da Matriz, Seu Geraldo das Nicas.

— Estranho. Muito estranho.

Com pouco, os malandros de Licânia, a entornarem litros e mais litros da cachaça da bodega do Edmundo Simplista, apostavam a origem e a relação entre os dois mistérios. “Deve ser coisa da oposição!”; “Que nada, onde já se viu!? Tudo obra de quem?! Deve ser arrumação deste prefeitinho de merda. De merrrrr…da!…”

— Vão todos para casa! Deixem a questão com as autoridades constituídas.

Cabo Dandora, para não perder o costume, ainda amaciou o lombo de meia dúzia dos mais afogueados com sua adorada companheira de cós.

— Mundiça!

Na manhã da terça, outro. Agora, o terceiro. Para assombro das beatas, no centro do Largo da Matriz de Sant’Anna.

— Minha Santa! Santa minha!

As beatas entoaram o Salve Misericórdia, puxando, em seguida, o ofício do rosário, em favor das almas mais desgarradas, e desgraçadas, no purgatório.

“No Céu, no Céu, com minha mãe estarei. No Céu, no Céu…”; cantavam a plenos pulmões as Irmãs de Maria, sob a regência de Dagmar das Piranhas, ex-prostituta do Caneco Amassado, convertida a pia mariana do Santo Ofício, após a morte do Seu Cristiano Falômetro, amante inesquecível.

— Estranho. Muito estranho.

Na quarta, outro aviso na calçada da delegacia. O quarto. Saudada com uma sova nos presos da cadeia. Peia de fazer todos se urinarem de dor, e de raiva do “maldito cabo”.

Quinta-feira, na calada da noite, os meninos da Rua de Trás deram com mais um: o quinto. Em frente ao Patronato Sant’Anna. As freiras, atordoadas, não sabiam se oravam ou se praguejavam contra tamanho infortúnio.

— Estranho. Muito estranho.

Sexta, o prefeito, ao ficar sabendo de mais um acontecido, o sexto, e com as filas de visitantes de várias cidadezinhas da ribeira do Acaraú para testemunharem o inesperado, chamou o seu assessor de confiança, responsável pelas licitações mais rentáveis, e confidenciou-lhe:

— Não podemos desperdiçar tal oportunidade, Seu Chaga Magrela. Nosso município foi escolhido pelo Além. Você não acha? Agora, só nos resta dar uma “mãozinha” para tais sinais nunca faltarem. Você me entende?

—…

—Não me venha com esta cara de égua, seu cabra frouxo. Honre essas calças, homem de Deus! O caso é para o bem comum. Somos servidores públicos. Nossa missão: servir ao povo! Nunca se esqueça: servir ao povo!

— Estranho. Muito estranho.

Quando, no sábado, o sétimo sinal deu-se na Prefeitura, ninguém entendeu nada. Foi o maior deles, bem em frente à porta principal.

Não houve expediente. A horda quilométrica de visitantes, a carregar o manto da Santa e a proclamar o fim dos tempos, já era notícia em todos os jornais do estado.

Quando o servidor Chaga Magrela, preocupado com o “apurado das últimas ações públicas”, conseguiu finalmente entrar no prédio, pelos fundos da prefeitura, a cidade foi sacudida por um grito de horror, e arrepio.

“No Céu, no Céu, com minha mãe estarei. No Céu, no Céu…”

— Estranho. Muito estranho.

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* Texto enviado e autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

Este texto faz ponte com o de Alcides Buss (vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3856).

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