Um homem obscuro* | Franklin Jorge

 

A Laurence Nóbrega

 

De Aruanã a Cocalinho, que fica do outro lado, em território do Mato Grosso, é um pulo, ensina Maci; são dezesseis léguas rio abaixo. Ao chegar, faça atracar o barco. O porto é favorável, de acesso fácil; seu barranco, um paredão natural incrustado de tapiocangas, o cais servido de ampla escada de cimento.

A casa indicada fica num declive que termina num porto particular, à margem do Araguaia, onde, no inverno, há quase sempre uma canoa ancorada. Ali mora ou demora Martinho Timóteo, velho pescador amigo de Maci, que o imortalizou num conto cheio de graça que tive o impulso de recriar, pelo gosto de reduzir-lhe as adiposidades verbais que a meu ver lhe enfraquecem as virtudes da criação. Também, queria intervir no texto, colocando ao meu engenho no que percebi das entrelinhas.

Suba, vá direto pelo lado esquerdo da igreja, siga aquela rua comprida até o fim e, na última esquina, à direita, está a casa dele, Timóteo; uma casa de pau a pique com enchimento de barro, coberta de palha, com um mangueiral na frente…

Dona Tomásia, cadê Martinho? Sei lá, sêo moço… Fez dias que saiu e, como de costume, não disse para onde ia… Deve estar na outra casa… O Araguaia.

Nascido lá para as bandas do rio do Sono, em Pedro Afonso, o velho conta setenta e seis anos bem curtidos. A voz baixa, modulada, gosta de conversar. Vamos entrar. Abanque-se, a casa é sua… Como é mesmo sua graça? – irá ele logo convidando, perguntando e conduzindo-nos para a cozinha ampla, misto de sala de visitas e oficina, onde ele prepara sua tralha de pescar tartaruga e peixe.

Sempre em trânsito, sua real moradia é a canoa, é a praia, são os furos e os lagos. Timóteo nunca foi homem de terra firme, onde está sempre de passagem, sonhando as águas e seus mistérios, que ninguém conhece melhor do que ele.

O velho gosta de ser útil e de ensinar o que aprendeu em contato com a vida nas águas. Para tartaruga, anzol sem fisga, isca de mandioca puba, palmito de tucum, quando os macacos deixam algum, ou casca de melancia… Para os peixes de categoria, como o tucunaré, a matrinchã e o dourado, minhocas, pois eles só avançam em iscas vivas…

Aproveitando-se da ausência do pai que saiu da cozinha por alguns instantes, Nazaré confessa que o velho não para em casa. Ai, como nos aperreia! Então na seca leva cinco, oito, dez dias no rio, dormindo nas praias, sozinho, ele e Deus, inda mais agora que está enxergando pouco e a dor no umbigo amiudando… Ele tão velho assim, muito perrengue, a gente fica com medo de um dia ele não voltar…

Ficamos de olho pregado no espelho do rio, dia após dia, vendo se ele aparece. Quando menos se espera sua canoinha aponta lá longe, e ele vem, todo satisfeito, salvando a gente como se tivesse viajado na véspera, a canoa cheia de tartaruga, tracajá, peixe seco e caça moqueada. É um alívio e um farturão que só vendo… Ah, se o senhor chegasse aqui num dia desses… Havia de se admirar com a grandeza desse rio e dessas matas.

Ouve-se a voz do velho, entrando em casa. Tomázia, côa um moca pra nossas visitas… Gente do Maci. Bons amigos…

Jorge Antonio encanta-se com o velho que continua trabalhando enquanto conversa. Todos os apetrechos usados nas pescarias merecem de sua parte um cuidado especial. Quem disso usa, disso cuida, justifica-se, vistoriando minuciosamente as varas de pescar, os anzóis, as redes, os arpões, as piracas.

Quando sua canoa fica velha, a calafetagem de trapos não vedando mais a água, ele vai para o mato com um dos filhos, lá derruba um tamboril ou uma jangada (tipo de madeira) e ali mesmo constroem a nova embarcação.

Se o visitante, colecionador de lendas, pergunta-lhe se no rio existem seres estranhos, Martinho Timóteo responde que não. Isso só muito longe daqui. Conheço o Araguaia todinho. Quando solteiro morei em Belém. Lá em baixo, sim, é que tem boiúna, negro-d´água e rodeiro. Aqui, não.

Agora, pra cima, em Leopoldina, coisa de nove léguas, adiante do esgoto de Água Limpa, tem uma pedra chamada Cantagalo. É bem capaz de vosmicê ter ouvido falar nessa pedra. Ali tem pescador, como o Chico Tobó, das Cangas, e o Mané Boca de Sulamba, morador de Dumbazinho, que viram muitas vezes uma mulher em cima da pedra, os cabelos cobrindo o corpo, ela penteando eles com os dedos compridos… Quando ela vê gente cai na mesma hora dentro d´água…

De madrugada, isso muita gente já viu e pode testificar, um galo canta ali, o canto vindo do fundo do rio, bem debaixo da pedra…

Feitiço não existe não senhor. Existe, sim, simpatia. Cada um de nós tem sua força. Tem gente que benze mordedura de cobra. Meu pai, o finado Pedro Monteiro de Lima, era benzedor afamado. Viveu por este mundão. Quando ele morreu o povo conta que três cobras vieram visitar ele. Elas sempre visitam o grande benzedor quando ele morre…

Timóteo conta que veio de conceição do Araguaia para Cocalinho, já casado. Aqui teve seus filhos e netos, quando o lugar ainda era selvagem e tinha somente oito casas de cristãos, além das cinquenta malocas de Carajás, quase um aldeamento de índios. Agora, mal chega a seca, caravanas e mais caravanas invadem as praias do Araguaia.

É turista que não acaba mais. Vem gente de longe sonhando pegar peixe com a mão ou cutucar tudo quando é caça com o cano da espingarda, para aparecerem em filmes como heróis… Acaba todo mundo voltando sem pescar e sem caçar… Que peixe vai querer trabalhar de galã em linha com anzol ou arpão, ou o bicho do seco que quer servir de brincadeira de espingarda?, indaga o velho, sorvendo o espesso e perfumado café.

Menino, tenho amigos que não acabam mais… Nunca ofendi a ninguém, nunca matei nem roubei, mas divido minhas amizades em duas bandas. O amigo que serve a gente na hora da precisão, e o amigo que só vem depois da dificuldade, aquele que falha quando a gente confia nele, como o degrau que a gente cava no barranco e se desfaz quando nele pisamos, fazendo a gente esborrachar lá embaixo… Quem tem desses amigos não precisa que a justiça lhe ande nos encalços. Já está provido de desgraça. Não acha vosmicê que estou certo?

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* Texto extraído de O ouro de Goiás, Editora Kelps, Goiânia – GO, 2012 , Crônicas, e enviado pelo autor. Contato: franklinjorge@yahoo.com.br, www.osantooficio.com.