A Tarde do Fauno | Hugo Santos*

O objeto de uma representação pode ser qualquer coisa existente, perceptível, apenas imaginável, ou mesmo não suscetível de ser imaginada.

                                   ( LUCIA SANTAELLA )

 

  A obra IMAGEM, de Lucia Santaella e Winfried Noth, nos traz prioritariamente a visão que falta ao iniciante – o processo evolutivo de produção de imagem. Ao longo dos textos, os autores declinam-se sobre explicações de caminhos que levam o leitor ao deleite completo de uma doutrina de composição de imagens, mantendo um foco indivisível, o que torna a leitura, além de instrutiva, necessária ao acadêmico ou pesquisador.

Em seu capítulo 11, é proposta a existência de três paradigmas no processo evolutivo, sendo que todo o processo evolutivo das técnicas e das artes da figuração, aos olhos do teórico Edmond Couchot, divide-se em apenas dois grandes momentos – o da representação e o da simulação. A partir dessa combinação binária, em que a divisão das imagens baseada na oposição entre representação e simulação faz um sentido muito parcial, e haja vista a sua classificação estar mais próxima da classificação proposta por Paul Virilio, Santaella apresenta a classificação logística da imagem, subdividindo-se em eras da lógica formal, da lógica dialética e da lógica paradoxal.

Na tentativa, portanto, de se ilustrar o pensamento teórico apresentado na obra, a seguinte imagem e texto foram escolhidos, tratando-se este último da música “A Prosa Impúrpura do Caicó”, do cantor e compositor Chico César:

 

A prosa impúrpura do Caicó

                                          (Chico César)

Ah! Caicó arcaico
Em meu peito catolaico
Tudo é descrença e fé

Ah! Caicó arcaico
Meu cashcouer mallarmaico
Tudo rejeita e quer

É com, é sem
Milhão e vintém
Todo mundo e ninguém
Pé de xique-xique, pé de flor

Relabucho, velório
Videogame, oratório
High-cult, simplório
Amor sem fim, desamor

Sexo no-iê, Oxente,

oh! Shit, Cego Aderaldo

 olhando pra mim
Moonwalkmam

 

“Meu cashcouer mallarmáico…”

… em sua breve expressão, a profusão de símbolos remete-nos ao poeta hermético que expressava a verdade através da sugestão (imagético), mais do que da narração – uma literatura lúcida e obscura ao mesmo tempo.

A partir disso, na imagem escolhida para a ilustração (L’après-midi d’un faune / A Tarde do Fauno), oriunda do poema de mesmo nome, de Stéphane Mallarmé, datado de 1876, a partir do qual Claude Debussy compôs a sinfonia que foi o marco inicial da música moderna, o ambiente estético nos possibilita “olhar” os seguintes aspectos, inseridos na obra (poema):

– A tentativa do fauno em possuir a ninfa;

– Um só corpo, um só desejo;

– Garras/Galhos do fauno;

– Olhar levemente entristecido e erotizado das ninfas;

– Ingenuidade(?) da ninfa… do fauno(?);

– Ferocidade burlesca;

– Peito virgem;

– Luta da ninfa;

– Luta, morte e definhamento.

L´après-midi d´un faune (1876)

 

Permeando seus argumentos com ponderações argutas, os autores de A Imagem realizam um trabalho inigualável, com uma linha harmoniosa na narrativa do livro, e uma vez que o interesse maior é o de despertar interesse, a imagem torna-se evidência da condição humana geral – não acusa ninguém e acusa todo mundo.

Após apresentar uma distinção entre as composições da imagem, Santaella nos coloca uma citação de Virilio – o paradoxo lógico é o da imagem em tempo real que domina a coisa representada, este tempo que a partir de então se impõe ao espaço real. Esta virtualidade que domina a atualidade, subvertendo a própria noção de realidade.

Num único trecho, uma obra sublimadora, eterna e do mundo.

 

A Tarde do Fauno / Stéphane Mallarmé

Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra – alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso – ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos­ –DIZEI
“que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre.”

A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!

Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!

Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.

Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco… além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume.”

Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
“Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só – e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia.”

Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena…
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como tua sombra se faz.

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*  Texto enviado e autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório. Contato: hugotsan@hotmail.com