Reflexões precárias sobre a relação entre imagem e disposição epistemológica | Cláudio Clésio*

 

Tema de Marluce

 

De Jose Luis Paredis ou Cláudio Eufrausino?

 

Marluce conversa com a fé

Como o horizonte conversa com o farol

Quando ela ri, começo a sonhar

Quando ela fala, eu tenho em quem acreditar

 

Na luz do Mar, Marluce

Na luz do Céu, céu-luce

Com ela, a luz da lua é tão forte quanto a luz solar

 

Se rio com Marluce,

Se choro com Marluce,

Com ela, vejo-sinto sempre meu olhar brilhar

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=xzFvMBa9H2M

Esta análise tem por objetivo colocar em debate a questão da autoria, além de fazer, com base na teoria de Lucia Santaella (1998), uma breve relação entre a imagem fotográfica no paradigma pós-fotográfico com a imagem nos paradigmas anteriores (o fotográfico e o pré-fotográfico). Esta reflexão se dá a partir da associação estabelecida entre uma imagem colorizada por meio do programa Adobe Photoshop CS4 e um poema.

Santaella, ao falar sobre a ideia de crise de representação, comum ao repertório dos teóricos do pós-modernismo, retoma a reflexão feita por Foucault em As Palavras e as Coisas, reflexão pautada pela noção de epistemé ou disposição epistemológica que, simplificada e precariamente, pode ser descrita como a atmosfera que permite ao pensamento e aos discursos se expressarem de uma forma e não de outra.

Percebe-se na trilogia das disposições epistemológicas de Foucault, um percurso em que a representação tende a questionar sua suposta ancoragem com a realidade empírica. Em outros termos, o que se questiona é a ancoragem entre palavras e coisas.

No sistema de forças que atua relacionando palavras e coisas – e, por extensão, imagens e coisas – a episteme pré-clássica confere peso maior ao significante, do qual o significado ou conceito torna-se devedor.

A atmosfera clássica, herdeira do Cartesianismo, inverte a relação, enfatizando o significado como instância decisiva na arquitetura das representações.  Ocorre, nas palavras de Santaella, um deslocamento das relações sígnicas do mundo das coisas a um mundo dos signos das coisas. O signo deixa de representar a coisa e passa a representar a ideia da coisa. Torna-se inevitavelmente metalinguístico, pois será formado pela ligação entre dois tipos de ideia:

  1. A ideia da coisa que representa
  2. A ideia que reflete sobre a relação entre a ideia que se tem da coisa e a coisa em si (seja lá o que isso quer dizer)

Na segunda episteme, a clássica, esta metalinguagem está ancorada numa lógica que se pretende universal. Como dirá Santaella, a ordem da razão linguística determina, assim, a ordem das coisas em geral.

Na terceira episteme, do século XIX, a instância metalinguística do signo deixa de se ancorar numa lógica universalista ou numa verdade atemporal. É aí, propriamente, que se instala a crise da representação. Ao questionar como a ideia representa a coisa, a parcela metalinguística do signo se questiona a si mesma. Daí, decorrem duas opções:

  1. A lógica analisa o seu movimento de constituição histórica, isto é, como ela se forma no decorrer do tempo.
  2. A lógica aproxima-se de um flerte com o no sense.

Nesses dois casos, é possível detectar a necessidade de a lógica, ao se autoanalisar, recorrer ao mecanismo de citação.

É na virada da episteme clássica para a pós-clássica que Foucault insere sua reflexão sobre a morte do autor. Na episteme clássica, regida pela ideia de que o indivíduo pode se assenhorear da razão, a autoria se ergue como lugar em que o sujeito exerce o controle da representação.

Na atmosfera pós-clássica, em que a lógica está sujeita à historicidade, a autoria perderia a razão de ser. Não seria mais o indivíduo a se apossar da lógica, mas as diferentes lógicas historicamente construídas a atravessarem o indivíduo.

Podemos, dentro desta reflexão sobre as epistemes, falar sobre a autoria da imagem fotográfica quando de sua submissão aos processos de transformação mediados por programas como o Photoshop.

Com base na disposição epistemológica pré-clássica, a autoria estaria ligada ao estatuto indicial da fotografia. Nesse sentido, tende-se a pensar o autor da foto como aquele que controla os processos de captação da luz.

Assim, o manipulador de imagens seria uma espécie de pirata ou de depredador da propriedade imagética.

Numa perspectiva clássica, a autoria da imagem estaria centrada no conceito que ela exprime, sendo marca da autoria não tanto a indicialidade, mas a presença de uma dimensão artística. Neste caso, pode-se pensar num flerte entre o que Santaella chama de paradigma fotográfico com o paradigma pré-fotográfico.

Em conformidade com a atmosfera pós-clássica, há duas opções:

  1. A autoria da imagem se dilui na carga discursiva que ela arregimenta. Neste caso, a indicialidade acaba por confirmar o esvaziamento da função autoral
  2. A autoria passa a ser compartilhada entre o captador da luz e o manipulador, sendo um espaço de diálogo entre índice, ícone e símbolo.

Na segunda hipótese, a manipulação da imagem, em particular a colorização, depara-se com o dilema de permanecer no paradigma fotográfico ou migrar para o paradigma pré-fotográfico.

Em todo caso, um diferencial marcante da imagem pós-fotográfica é que ela deixa de ser vista como essencialmente icônica e passa a ser vista como algo que oscila entre ícone e símbolo. Adquire assim um caráter metafórico diverso. Deixa de ser uma metáfora associada a um repertórico fixo e estável de figuras ou tropos e passa a ser uma metáfora que se constrói ou uma metáfora crítica (que critica e que está em crise), como a denomina João Alexandre Barbosa (1986). E, nesse processo, a fotografia se torna uma co-enzima do poema e vice-versa, como também se torna um repositário de metáforas.

Referências Bibliográficas

BARBOSA, João Alexandre. As Ilusões da Modernidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1986.

SANTAELLA, Lúcia e Nöth Winfried. Imagem: cognição, semiótica e mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.

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* Texto e imagem enviados e autorizados a serem publicados no blog de Patricia Tenório. Contato: cleciopegasus@yahoo.com.br