Montes Claros e seus construtores | Mara Narciso*

 

             Imagino Wanderlino Arruda, o nosso intelectual maior, e as palavras que escolheria para falar de si, das suas características físicas, psicológicas, cultura, feitos, agremiações de que participa, dos mais de 20 livros que publicou, dos cursos em que se formou – Contabilidade, Letras, Direito – e pós-graduação em Linguística. Nasceu em São João do Paraíso no mesmo ano da minha mãe – 1934. Eu o conheci há dois anos, quando fiz estágio de Jornalismo no Canal 20. Fui entrevistá-lo sobre Darcy Ribeiro. A conversa foi rápida, e ainda assim pude me encantar com a pessoa de Wanderlino Arruda. Comentei com uma amiga sobre como era agradável falar com pessoas cultas, que nos embriagam e nos acrescentam. Vontade de ficar ali, sugando informações naquela linguagem gostosa, poética, filosófica, que nos faz crescer o espírito. O som entra pelos ouvidos, nutrindo a alma.

            Há alguns anos leio crônicas e poemas de Wanderlino Arruda na internet, mas agora tenho um livro inteirinho. Demorei seis dias para terminar de lê-lo. Construtores de Montes Claros foi lançado na semana passada. Na apresentação, o autor falou que as pessoas escolhidas eram gente de que ele gostava. Diante de uma lista de admirados, imagina-se um desfile de elogios, de enaltecimento monótono de admirador diante do ídolo. Está bem que em certa medida é adulação, porém com categoria. Armado de palavras para desarmar resistências, Wanderlino Arruda organiza seu desfile de personalidades. Perfila-os e lhes dá um banho de valorização, nos comuns e nos incomuns. Não é só um culto a vaidade, mas uma lista de mérito. O autor é capaz de traçar as características psicológicas do homenageado, e até flerta com um possível defeito ou inimigos, porém, não os cita nominalmente. Pessoas diferentes recebem caracterizações diversas e quanto mais marcantes as qualidades do retratado, maior entusiasmo mostra o escritor nos feitos daquele. Ganha o leitor.

            São 54 crônicas, sem ordem cronológica, sendo umas referentes a prefácios, outras posses na Academia Montesclarense de Letras, despedida por morte, ou apenas um gesto de saudade. O autor, loquaz orador, com boa conversa e alegria, mostra paixão por cultura, línguas estrangeiras, música, viagens, bem trajar, não ter ambição, valores dos outros em que também se revela. Pródigo, não se abstém de engrandecer quem de fato é grande, aquele que figuraria bem em qualquer lista. Outros são surpresas, pessoas comuns que fizeram seu trabalho de forma correta, apenas por sobrevivência, e ainda assim mereceram destaque.

            O que os retratados têm em comum é a capacidade intelectual, seja por inteligência pitoresca ou por cultura adquirida. Quase todos pertencem ao grupo de cultos. A personalidade cuja descrição me chamou mais a atenção foi Dona Fernanda Ramos, recebedora dos adjetivos mais entusiasmados. Lembro-me da sua atividade frenética junto às irmãs do Colégio Imaculada Conceição. Não sabia que é tão importante e capaz.

            Construtores de Montes Claros, mesmo sem ter essa pretensão, vem organizar e detalhar os feitos dessas personalidades. Este é o primeiro, mas serão oito livros de homenageados, informa o escritor. Há alguns vivos, outros mortos, mas todos contemporâneos de Wanderlino, que entre outras coisas estudou no Colégio Diocesano e no Instituto Norte Mineiro, escolas onde estudaram minha mãe e meu pai, respectivamente. Creio que eles possam ter sido colegas do autor. Características de professores citadas no livro eram por mim conhecidas, pois meus pais falavam da elegância e sapiência deles. Como tinham boa linguagem, devem ter sido assim por terem bebido na mesma fonte de Wanderlino Arruda.

            O centro do livro é sim, a exaltação de pessoas, na linguagem rica do escritor, uma fonte inesgotável de alegria e generosidade. Quem não merece não está na lista. E como foi dito por ele, quanto mais o rol é ampliado, mais gente comum poderia entrar, o que tornaria as lacunas intermináveis.

             A melhor crônica, que além de se destacar entre todas, adquiriu vida própria, foi a homenagem a Pedro Martins Sant’Ana. Sobre ele, diz Arruda: “Para nós, seus alunos, o verdadeiro descobridor do Brasil, o homem que abria as selvas, rasgava estradas, construía escolas, levantava templos, era ele, Pedro Sant’Ana, o grande Pedro.” Não o conheci, mas o achei maravilhoso. Apaixonei-me por esse professor de História. E fiquei a pensar como os bons professores são transformadores. Eles levam os alunos para a luz, para o bem, para tudo que houver de melhor, desde que estejam preparados para isso, assim como os bons escritores. Ler livros é trazer o escritor para perto de nós e sorver dele o que pensa. E de pensar que há quem não goste de ler.

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* Mara Narciso é médica e jornalista diplomada – 20 de maio de 2012. Texto enviado e autorizado pela autora para ser publicado no blog de Patricia Tenório. Contato: yanmar@terra.com.br