O crime do tenente | Sânzio de Azevedo

           

            A rua amanheceu cheia de barulho: conversas, cochichadas ou exaltadas, falavam de um acontecimento triste que marcara a noite: Edmar, jovem tenente do Exército, havia assassinado a esposa, com um tiro de revólver.

            Alegava ele que, ao limpar a arma, ocorrera o disparo. A maioria dos vizinhos não acreditava nessa versão, e parecia ter razões para isso, visto estarem cansados de ouvir discussões entre os dois, e tudo indicava a presença de muito ciúme na origem daquelas desavenças.

            Não faltou quem informasse que Estela se havia casado contra a vontade do pai, fazendeiro nas bandas de Quixeramobim, e que, vindo com o militar para Fortaleza, logo descobrira que ele tinha uma amante, causa dos desentendimentos entre os dois. E mais: o velho fazendeiro nutria ódio de morte ao genro.

            A história do tiro casual terminou por absolver o tenente de qualquer culpa, até porque a morte de Estela não tivera testemunhas, e mesmo os vizinhos que acreditavam em crime confessavam fazer algum tempo que ninguém escutava discussões naquela casa.

            Passaram-se meses, e começaram a surgir rumores de que o jovem militar era visto todas as noites namorando num banco de praça, em um bairro próximo. A praça era escura e somente a muito custo algumas pessoas podiam reconhecer o tenente Edmar, abraçado e aos beijos com uma mulher desconhecida.

            Se se tratava da mesma amante que provocara tantas discussões entre ele e sua esposa, ninguém jamais veio a saber, mas houve quem ponderasse:

            — Com todo esse agarramento, isso não está parecendo amor antigo não…

            Ao amanhecer de um belo dia ensolarado, encheu-se a rua, outra vez, de conversas, cochichadas ou exaltadas. Mas se a exaltação, da vez anterior, traduzia revolta, agora era de puro júbilo: na noite passada, o tenente havia tombado na praça com três tiros de revólver. Contava-se que alguém, talvez a namorada, tinha ouvido o barulho de um carro se distanciando. E só. Nunca se soube quem fora o criminoso, nem se havia qualquer relação entre esse crime e o assassinato de Estela.

            Alguém comentou:

            — Cabra bom! Numa escuridão daquela, acertar três tiros no cidadão e nenhum na mulher…

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Extraído da Revista Oeste, Março de 2012, nº 15, Mossoró – RN. Texto autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório. Contato: sanziodeazevedo@gmail.com