Minicontos | Jacinto dos Santos*

Conto 1:

Foto: Emir Ozsahin

 

Ela saiu cedo de casa para ir ao trabalho com uma hora de antecedência, porque queria caminhar até ao trabalho ao invés de ir de ônibus. Aproveitaria assim a caminhada para refletir sobre a aridez de sua vida nos últimos tempos. O que fazer, era o seu questionamento. Tudo era uma sucessão de repetições que a deixava angustiada pela rotina. Em nada mais percebia motivação para sair do estado de marasmo que a acometia. Chegou ao trabalho, arrumou sua mesa, executou todas as exigências da agenda do dia, mas nada a fazia feliz. Falou com o seu chefe pedindo-lhe para sair mais cedo, uma hora antes do fim do expediente sem alegar qualquer motivo plausível. Caminhou por mais uma hora até sua casa. Ao chegar ao portão de seu jardim, viu que a secura da terra era grande. As plantas estavam quase que mortas, mas uma única flor ali resistia ao abandono de sua própria sorte. Ela sorriu, colheu aquela única flor e a pôs num pequeno vaso ao lado da cabeceira de sua cama.

Conto 2:

Foto: Raymond Depardon

 

Com o olhar estendido num canto do tempo, o silêncio a retém no vazio da casa. Uma luz estranha vaza pela janela como um raio furtivo da tempestade anunciando toda a inquietação da natureza. É a inquietante certeza das flores murchas pelos dias já passados e que toda lembrança é como uma escrita de uma carta adormecida entre as páginas do livro de cabeceira esquecida, mas que se sabe de sua presença. Tudo naquele canto da casa é uma história: as xícaras arrumadas na prateleira à espera do café quente dos afagos de um dia; uma fruta murcha sobre a mesa recordando as delícias festivas de uma vida; um telefone que não mais anuncia a voz amada dizendo de sua chegada… todas as coisas ali se denunciam a ela, pronunciam-se no espaço agora frio de uma eternidade.

Conto 3:

Foto: Lorena de Barros

 

Ela levantou certa, numa manhã, de que faria uma tatuagem que seria eterna no seu corpo. Mas ela se esqueceu do limite da eternidade, que tão somente vai até as horas duma viçosa flor. E realizou o feito de se por ao escultor a impingir-lhe o desejo daquele instante, com a prerrogativa do infinito. Assim foi. A cor imprimiu-lhe a sua marca em sua epiderme e a encantou, como toda promessa de um lindo sonho de fada. Vaidosa da conquista, ela desfila aos olhares, mas uma lâmina cruel cruza-lhe a pele esculpida e se perde na ferida tudo que a impressionou. Agora, embalada por mais uma noite, acorda decidida a recompor a sua alma menina tatuada pela experiência.

Conto 4:

Foto: Jacinto dos Santos

 

Ele andava lado a lado de si mesmo pelas ruas a passos perdidos sem a certeza de chegada ou de partida. Seu corpo disputava espaço no vazio das calçadas indiferentes à sua sombra. E ele era mais um na oquidão das avenidas cruzadas por frustrações, tédios e abandonos. Cansado de mendigar um único olhar, ele se senta à margem da calçada e passa a ver a lataria brilhante dos carros que transitam ensimesmados.

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* Textos enviados e autorizados pelo autor para serem publicados no blog de Patricia Tenório.

Jacinto dos Santos: Doutorando em Educação; mestre em Teoria da Literatura; professor de Literatura da UPE; crítico e ensaista de artes e literatura; escritor de prosa e verso. Contato: jacintodossantos@gmail.com