Pôr do sol de outono* | Shirley Lima**

 

Quando as nuvens davam passagem aos primeiros raios de sol, o outono já pertencia à atmosfera. O outono é nítido de suntuosidade, cores sóbrias germinam por entre as coleções desta estação que florescem por entre as vitrines. Florestas acomodam as folhas secas nos pés das árvores. Pássaros recolhem-se ao pôr do sol, sem deixar de seguir viagem pelas estações seguintes, estas que se renovam feito as folhas.

Mas havia naquela tarde um brilho diferente, um brilho que ofuscava o lago, dentro de uma cumplicidade e sincronia perfeitas; voltavam os pássaros, de um trajeto o qual desconhecemos. Mas por onde passam? Por onde cantam? Como entendem a disciplina da constelação em noite sem nuvens carregadas de deixarem apenas sobrevoar no céu o brilho da constelação. Nessas horas, o espetáculo não canta, mas encanta, os pássaros adormecem e as estrelas parecem sorrir, piscam de felicidade, movimentam-se sutilmente. Porém, naquele dia, ainda não tinha chegado a noite e aquela tarde tornou os meus olhos expectadores de um brilho diferente, que foi lapidando um sentimento.

Vinha chegando o fim da tarde…

E, já ali em frente ao lago, sabia que quando as nuvens abrissem as cortinas para os últimos raios de sol passar, o seu olhar reluzia dentro de mim e eu não tive dúvidas que o brilho diferente que havia ali partia de você, e o seu olhar reluzia, foi quando eu tive a certeza de que você é o meu pôr do sol de outono.

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* Texto enviado e autorizado pela autora para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

** Shirley Lima é escritora e poetisa. Participa do blog http://www.recantodasletras.com.br/. Contato: shirleypessego@hotmail.com.