Ex-voto em traço de música*|Alcides Buss**

 

A língua do sol afaga
o futuro e é toda um veludo
de sons siderais.

A língua do sol faz bem
ao ouvido das plantas
e à pele das sombras.
É quase o remanso
de mãos, não fossem
as unhas divinas.

A língua do sol adoça
as fibras famintas
das formas diversas da vida.
É quase arquétipo-afeto,
não fossem os dentes desertos.

A língua do sol simula
o cometa profético da paz
inequívoca, não fossem
as tormentas que assolam seus pés.

A língua do sol, relíquia
exposta nos céus, caminha
em caracol de sorte. Seus tentáculos
não fôssemos, talvez
apenas se iludisse em si mesma.

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* Texto enviado e autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

** Alcides Buss começou a publicar seus poemas no final dos anos 60, dentro do movimento da poesia independente, também chamada marginal. Seu primeiro livro, de 1970, trouxe como título Círculo quadrado, numa referência irônica à realidade da época. Um ano depois venceu o I Festival Catarinense de Poesia Universitária, promovido pelo Diretório Central de Estudantes da UFSC, com o livro  experimental O bolso ou a vida? Com o objetivo de alargar a difusão da poesia, criou o Varal Literário e o Movimento de Ação do Livro, através do qual uma obra era repassada de mão em mão.

Ainda estudante de Letras, em Joinville, editou o jornal de cultura O Acadêmico, além de um suplemento literário nos Diários Associados de Santa Catarina. Convidado para diretor de cultura no Município, promoveu a criação  do Museu de Arte Joinville e da Escola Municipal de Dança, ponto de partida para o Festival de Dança surgido depois. Com outros poetas e escritores, editou a revista Cordão.

Em 1980, transferindo-se para Florianópolis, iniciou na UFSC uma experiência de criação literária com estudantes universitários. Durante anos, suas oficinas promoveram o surgimento de novos escritores, abrindo espaço também para o desenvolvimento de outras artes, como o cinema. Através delas, os varais literários se intensificaram e foram alcançando, aos poucos, outras cidades e estados brasileiros.

Eleito em 1993 presidente da Associação Brasileira das Editoras Universitárias, empenhou-se no fortalecimento da instituição, garantindo a participação das edições universitárias em todos os eventos nacionais e internacionais mais importantes. Seu objetivo maior, no entanto, foi a formação de uma rede nacional para distribuição e comercialização das edições acadêmicas, que abrange atualmente mais de cem livrarias.

Entre 1997 e 1999, presidiu a União Brasileira de Escritores de Santa Catarina. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2000 com o livro Cinza de Fênix e três elegias (Editora Insular, 1999). Em 2000 publicou o livro infantil Pomar de palavras, pela editora Cuca Fresca e, em 2002, pela Editora da UFSC, o livro Contemplação do amor – 30 anos de poesia escolhida. .

Em anos recentes, Alcides Buss foi diretor de Comunicação da ABEU, criando e mantendo durante vários anos o boletim eletrônico semanal ABEUemREDE, bem como a revista Verbo, órgão de divulgação do livro universitário brasileiro. Foi ainda diretor de Difusão Editorial da mesma entidade, sendo responsável pela implantação do Catálogo Unificado das Editoras Universitárias. Atualmente, coordena o Círculo de Leitura de Florianópolis.

Ao longo dos anos tem recebido inúmeros prêmios, entre eles o da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), pelo livro infantil A poesia do ABC, e o Prêmio Manuel Bandeira, da União Brasileira de Escritores (RJ), pelo conjunto de sua obra.

É casado com Denise e tem três filhos: Deluana, Loreno e Hermano. Mantém na Internet a página www.alcidesbuss.com. Contato: alcides-buss@hotmail.com.