Georges Rouault e a luta entre o bem e o mal | Patricia Tenório*

27/04/12

Georges Rouault foi um artista solitário.

 

Clown Tragique, 1911

338 x 480

Produziu um trabalho “no qual provou que era possível ser independente ainda que um Modernista totalmente comprometido.” (LUCIEN-SMITH, 1999) Por necessidade, teve de morar em Versailles, num casebre insalubre, infestado de ratos. É dessa época a série de pinturas de prostitutas as quais atribuem a “uma olhadela” por entre a porta de um bordel.

 

Mulher nua se arrumando,

450 × 735

 “Não sou um especialista em assuntos de bordel… A mulher que vi através da porta entreaberta não é a mulher que pintei. Ela e o resto corresponderam ao estado emocional em que eu me encontrava na época.” (ROUAULT em LUCIEN-SMITH, 1999)

Nos parece que a solidão de Rouault vem ao encontro da busca por sua própria voz. Nesse caminho, ele experimenta pólos diametralmente opostos, a luta entre o bem e o mal, na procura por um centro. Mas este afastamento em busca de um estilo individual não é entendido pelos outros. Da mesma maneira que seu mestre, Gustave Moreau (1826-1898, vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3055), Rouault tenta por diversas vezes o renomado Prix de Rome sem obter sucesso.

A sociedade que coloca o artista no mais alto pedestal é a mesma que o abandona ao rés-do-chão. Basta que ele não concorde com os conchavos político-sociais desta sociedade, a bajulação, seguir a maioria e a manutenção no poder de uma mesma elite. E onde se encontra o desejo próprio?

“Não foi a influência de Lautrec, Degas ou dos modernos que me fizeram experimentar um novo estilo, mas uma necessidade interior, ou o desejo – talvez inconsistente – de não ser aprisionado por assuntos religiosos convencionais.” (ROUAULT em LUCIEN-SMITH, 1999)

 Mas os “assuntos religiosos convencionais” aparecem em sua obra madura contrastando com sua fase profana, como uma espécie de expurgo, de catarse.

 

 Ecce Homo

590 × 713

 

Christ and the Holy Woman

405 × 600 

 

Christ and the Disciples 

462 x 640

 

Santo Agostinho (354-430) em Confissões se assemelha a Rouault em suas dúvidas. Filho de uma mulher extremamente católica e pai ateu, Aurelius Augustinus foge da missão de um dia Bispo de Hipona como o diabo foge da cruz. Experimentou o maniqueísmo, que segundo o seu fundador, Mani, o bem e o mal eram princípios opostos e estavam presentes em todas as coisas. Mais tarde quando se converte ao catolicismo, nega a máxima do maniqueísmo afirmando a ausência do mal.

“Também pude entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não fossem boas de algum modo. Com efeito, se fossem sumamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem nenhuma bondade, nada haveria nelas que se pudessem corromper. Porque a corrupção é um mal, e não poderia ser nociva se não diminuísse o bem real.” (AGOSTINHO, 2008, p. 155)

Georges Rouault, assim como Santo Agostinho, apela para a sublimação, para a negação da existência do mal, considera o mal a ausência do bem, ou corrupção do bem, apela para a contenção da “fase negra” de sua vida quando pintava os corpos decadentes das prostitutas. Nos parece que as pintava no intuito de as punir (ou punir a si mesmo). Porque somente através da destruição até as cinzas do que é velho, antigo, ultrapassado, é possível a renovação, a construção de algo novo, com luz e forma próprias, sem depender do reconhecimento de uma sociedade hipócrita, sem depender mesmo se será reconhecido um dia. Apenas fazendo a sua arte, seguindo o seu “desejo” de não se deixar “aprisionar” por nada nem por ninguém.

Georges Rouault foi um artista livre.

  

Georges Rouault

1871-1958

 

Referências Bibliográficas

 [1] LUCIE-SMITH, Edward. Lives of the great 20th-Century Artists. Hardcover (http://www.artchive.com/artchive/R/roualt.html), 1999.

[2] AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2008.

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* Autora: Patricia Tenório : www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.