Sobre Utopia, de Thomas More | Uma leitura de Patricia Tenório

03/03/12

             Após a leitura de O jogo das contas de vidro,[1] de Hermann Hesse, continuei seguindo as setas de livros que indicam livros e descobri numa tarde, ao acaso (??), na estante de uma livraria, como se me chamasse, como se me convidasse com suas orelhas abertas, como se com suas orelhas tivesse escutado meu pedido da origem das origens do Jogo de Avelórios: eis que a mim se apresenta Utopia,[2] de Thomas More.        

            É certo que ele me havia sido apresentado pela primeira vez assistindo a Ever After[3]

httpv://www.youtube.com/watch?v=WhZ3Yq8ogq4&feature=related  

na cena em que a protagonista, Danielle de Barbarac, cita um trecho do livro ao Príncipe Henry na tentativa de libertar o criado vendido por sua madrasta, numa alusão ao conto de fadas Cinderela. Nesse emaranhado que o fio de O jogo me colocou, acrescento a próxima seta indicativa de leitura: A República,[4] de Platão.

            O que é original? Quem é original? Ou os escritores são apenas repetidores, apenas imitadores de quem vislumbrou a Verdade?

            O fato é que O jogo das contas de vidro (1946) encontra semelhanças com Utopia (1516), que encontra semelhanças com A República (século IV a.C.). A música aliada à educação é uma delas. A vida em comunidade, com a exclusão do poder, da vaidade e do dinheiro (especialmente em Utopia). A coerência e a busca do Ser em detrimento do Ter. Com a base das necessidades atendida, a partir de então se deve procurar o equilíbrio, a harmonia e o amor ao saber como fonte de felicidade.

            Às vezes, o entendimento na leitura dessas três obras não é fácil nem claro. Mas acredito no potencial infinito da mente humana e na capacidade de conexões futuras, mesmo daquilo que não está sendo compreendido no momento.

             O escritor precisa estudar sobre a vida para escrever sobre a vida. E, além de observar o dia a dia, seu e dos que se encontram ao seu redor, pode-se (e deve-se) estudar os clássicos, não somente os da Literatura e da Poesia, como também os da Filosofia, Psicologia/Psicanálise, Sociologia, Política, Antropologia…, em todas as áreas do conhecimento humano que alicercem a construção de sua obra artística.

             Mas deve-se ter o cuidado na escolha dos assuntos para não sair do centro da pesquisa, o meta-assunto que os diferentes livros indicam, e para isso é preciso seguir a intuição. E também a dialética de Sócrates, quando, nos diálogos de Platão, desfia assuntos aparentemente díspares, mas tendo em vista um objetivo único, um único tema.

             Penso que o meta-assunto dos três livros seja uma intrigante pergunta: pode um mundo existir sem barreiras, diferenças sociais, um mundo que todos vivam como irmãos? Várias são as respostas, diferentes são as respostas. Mas, ao que me parece, baseiam-se no controle de si, na reunião das diversas partes que constituem um ser fragmentário, transformando-o em um ser unitário, o mais próximo possível do divino. E, principalmente, no caso de Platão, as revoluções que isso implica ao modificar o mundo, quando se retira dos deuses a responsabilidade por nossos atos, assumindo as escolhas condizentes com o livre-arbítrio.

             Aonde a leitura irá me levar? Não sei responder ainda, não sei ao certo. Apenas que se aquiete a fome de saber por uns instantes, e, saindo de mim, possa me ver maior e solta das amarras do eu antigo, que esses três livros ajudaram a libertar.

Sir Thomas More, Hans Holbein (1497-1543) 

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(1) O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse, Editora BestBolso, 2007.

(2) Utopia, Thomas More, Editora Martins Fontes, 2009.

(3) Ever After (Para sempre Cinderela), 1998. Direção: Andy Tennant. Com Drew Barrymore (Danielle de Barbarac), Anjelica Houston (Rodmilla) e Dougray Scott (Príncipe Henry).

(4) A República, Platão, Editora Martin Claret, 2000.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com