Poemas Selecionados | Jorge Tufic*

 

84 [1] 

 

Faz poesia o

chinelo deixado nas

ruínas do

alpendre.

 

Faz poesia o

tanque da

casa entregue aos

ermos.

 

Faz poesia o

balanço que

embala a

saudade.

 

Faz poesia o

graveto

no meio da

coivara.

 

Faz poesia o

anjo de

costas para a

galáxia.

 

Faz poesia o

menino que

inventa os sons

da palavra.

 

Faz poesia o

copo no

sono das

moscas.

 

Eu não faço

poesia.

 

  

A vigília[2] 

 

A noite se crava em meus ossos.

Ela tem muito de mim:

guarda os milênios de chuva

destaca as fogueiras do mito

faz gotejar os pajés da Amazônia

sobre lagos & rios.

 

Essa noite não dorme

enquanto a prolongo.

 

Suicídio na aclimação[3] 

 

Que nome dar à solidez dos objetos

que te viram partir,

o desespero branco voltado para onde tarda

o socorro a notícia o diminuto eco,

talvez,

de tua morte sequer imaginada?

 

Resta agora a solidão geométrica

do encarceramento vesperal,

com teus punhos ensangüentados,

tua boca terrível,

gasta e seca.

 

Pretúmulos edificados na linha dos postes,

sacadas vazias, vento morno,

cortinas sem brilho.

Solitários vultos,

lá embaixo,

contemplam o domingo driblado

pelos velozes motoboys

entregadores de pizza.

 

  

I[4] 

 

Contam que foi assim.

As águas baixaram tanto

que os peixes subiram para a terra,

tomaram forma de gente.

 

Uma Cobra do tamanho do arco-íris

espalhou essa gente pelas margens do rio.

Antes da pupunha e do arumã,

antes do Dia e da Noite…

 

Das seis coisas invisíveis, como ganchos,

cuias, bancos, maniva, ipadu e cigarros,

destacou-se a mulher,

criada por si mesma.

 

Ela aparece no desenho dos índios

sorrindo para os trovões…

 

Enfeites e objetos de uso,

também estavam prontos, ali.

E as casas eram de pedra tão fina

que luziam por dentro…

 

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* Jorge Tufic nasceu em Sena Madureira – Acre (1930). É filho de imigrantes libaneses. Seu nome completo: Jorge Tufic Alauzo. Estreou-se na poesia com o livro ¨Varanda de Pássaros¨ (1956), já em Manaus, para onde transplantou-se com a família. Em 1954 ingressou no Clube da Madrugada, um movimento cultural baseado num manifesto sucinto, porém radicalmente inovador das artes e letras amazônicas. Em 1980 conquistou o primeiro lugar no Concurso Nacional para escolha da letra do Hino do Amazonas. É detentor de vários prêmios nas categorias de ensaio, crônica, conto e poesia. Tem mais de 50 títulos publicados, a maioria deles na área do fazer poético. Reside em Fortaleza desde 1992. Contato: jorgetufic@hotmail.com

(1) Extraído de Guardanapos pintados com vinho, Jorge Tufic, Realce Editora e Indústria Gráfica, 2008, pp. 58-59.

(2) Extraído de Poema-Coral das Abelhas, Jorge Tufic, Expressão Gráfica e Editora, 2010, p. 21.

(3) Extraído de A insônia dos grilos, Jorge Tufic, Expressão Gráfica e Editora, 2011, p. 22.

(4) Extraído de Quando as noites voavam, poema Boléka – A onça invisível do universo (Mitologia Dessana – Tukano), Jorge Tufic, Valer Editora, 2012, p. 27.