“Separação”, Anna Akhmátova

É com prazer infinito que inauguro o blog com uma de minhas poetas

prediletas, Anna Akhmátova, nascida em Odessa, Rússia, em 23 de Junho de

1889 e falecida em 05 de Março de 1966. Entre suas principais obras destaco

“Rosário” (1914), “Junco” (1924-1940),  “Réquiem” (1935-1940) e o “Sétimo

Livro” (1963-1964).

Separação (“Junco”, 1924-1940)

1

Nem semanas nem meses – anos

levamos nos separando. Eis, finalmente,

o gelo da liberdade verdadeira

e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,

e não me terás para ficar ouvindo até o amanhecer,

enquanto flui o riacho das provas

da minha mais perfeita inocência.

2

E como sempre acontece nesses dias de ruptura,

a nossa porta bateu o espectro dos primeiros dias

e, pela janela, irrompeu o salgueiro prateado

com toda a encanecida magnificência de seus ramos.

E nós, perturbados, amargos mas altivos,

não ousamos erguer do chão os nossos olhos.

Com voz exultante, o pássaro pôs-se a cantar

o quanto um do outro tínhamos gostado.